Cai cai

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Ciao!

O dominó da economia europeia começa a derrubar peças cada vez maiores. Quando caiu, por exemplo, o primeiro-ministro de Portugal, um coadjuvante da crise, até era algo de se esperar, e não houve muito estardalhaço. Agora, quando se fala numa mesma semana de duas peças grandes dessa armação, e que estão sendo pressionadas como Grécia e Itália, a coisa muda um pouco de figura e deixa os investidores internacionais de cabelos em pé.

Na verdade, parece um pouco surpreendente que isso tenha acontecido apenas nesse momento (muitos já cantavam essa jogada). A saída do premiê Giorgos Papandreou na Grécia faz parte de um acordo interno do governo para tornar possível a implementação de medidas previstas no acordo europeu de ajuda à Grécia – apenas com a formação de um governo de coalizão seria possível aplicar as medidas de austeridade para que a UE venha em socorro dos irresponsáveis bancos gregos (incluindo um generoso corte de 50% na dívida…). Já na Itália, o problema é uma crise de credibilidade, e o bonachão Berlusconi anuncia que sairá do governo logo após implementar as medidas de controle e regulação de finanças, prevendo eleições das quais não participará. Claro que o primeiro-ministro italiano tinha muito mais problemas, que iam de escândalos sexuais a corrupção, e a crise econômica parece ter sido uma justificativa bastante oportuna para seu afastamento – afinal, a Itália seria “grande demais pra ser resgatada”.

Estariam esses líderes pensando em uma espécie de trade-off? O Giovanni mencionou esse tipo de mecanismo ontem – no caso os europeus optariam por algo ruim para evitar algo pior. Vejam só: quando a UE começou a aceitar os países menos ricos para seu clube, estes mascararam contas e inflaram números para parecer mais importantes. A falta de responsabilidade dos governos anteriores, a fartura de crédito e os lucros dos juros resultaram nessa bola de neve atual, e os governos atuais pagam o preço de processos e escolhas feitas há mais de 10 anos. Ao saírem nesse momento, impondo as medidas impopulares, não estariam esses governantes assumindo para si o ônus da fúria popular e tornando a missão dos governos que estão por vir menos indigesta?

É complicado imaginar que se haja um raciocínio tão altruísta. Mas o fato é que outros países estão na linha de tiro agora: na Espanha e na França os governos estão desacreditados e à sombra da oposição nas pesquisas para as próximas eleições, e uma hora essa bomba das medidas de austeridade vai estourar na mão de alguém – resta saber se nos governos atuais ou nos seguintes. E assim, as decisões de hoje podem reverberar por muitos anos no futuro…

Disso tudo, uma grande ironia: a Islândia. O pequeno país tem duas lições a ensinar aos seus companheiros europeus. Primeiro, quando seus bancos quebraram, em vez de onerar o contribuinte, deixaram que os bancos fossem para o ralo e cuidaram de resguardar sua estrutura fiscal e organizar a casa. Claro que a situação não se compara à dos outros países em crise, mas após 3 anos de dureza, sua economia é uma das poucas que dá sinal de recuperação na Europa. E isso pode ter a ver com o segundo fator – por não estar na zona do Euro, essa regulação foi bastante facilitada. Não seria isso um sinal para os demais?


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