Cadê as RI na África?

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Desde o primeiro momento, já gostaria de dizer que o post de hoje é mais um exercício de reflexão do que qualquer outro tipo de entendimento. Em algum momento da graduação, principalmente para estudantes de Relações Internacionais, ou até mesmo para pessoas que assistem simplesmente aos telejornais ou leem jornais de média qualidade, os temas relacionados à África (normalmente) ficam em segundo plano. 

Não quero dizer que ninguém se interessa pelo estudo político, social, econômico e cultural da África. Até porque o número de estudos brasileiros sobre o continente vem aumentando consideravelmente nos últimos anos. O meu ponto de vista reside no fato destes trabalhos sempre serem quantitativamente inferiores comparados com outras localizações. E ainda bem que qualitativamente isto é diferente. 

Eu, por exemplo, não estudo África. Interesso-me mais pela América do Sul e Europa. Não me perguntem o motivo, pois talvez não saberei responder o porquê de escolher estes universos de pesquisa. Creio que isto representa uma série de causas. Grade de disciplinas dos cursos, falta de know how de alguns professores sobre estes temas, desinteresse por parte dos alunos, falsa realidade apresentada por jornais baratos e por aí vai. 

Mas, então, cadê as RI na África? Quando falo “na África” quero dizer dentro do continente e como isso se transpassa para estudos fora dele. Li, recentemente, um texto que aborda esta questão e é intitulado “África: ensinando RI onde isso não deveria estar” (tradução própria). Vejamos alguns pontos fortes que confirmam a precariedade teórica desta área de estudos por lá. 

Primeiro, os trabalhos envolvendo as RI africanas surgiram em 1977 na Nigéria. Isto mesmo, 1977! Se nós consideramos as RI ocidentais como recentes, imagine aquelas então. Segundo, a falta de financiamento e a instabilidade política dificultam o desenvolvimento acadêmico. Há uma nítida diferença entre teoria e prática na África. Terceiro, as teorias clássicas (o Realismo, por exemplo) predominam nos países. É daqui que parte a questão: Como estudar as RI africanas sem uma abordagem multidisciplinar? Como falar de uma teoria que coloca o Estado enquanto ator unitário em um continente muitas vezes sem Estados considerados soberanos? 

Os três pontos mencionados se referem à realidade das relações internacionais dentro da África. Contudo, na minha opinião, isso tem influência direta para com os estudos “externos” que analisam o comportamento de alguns países ou até mesmo do continente como um todo. Se houvesse uma teoria de RI africana, com toda certeza pesquisadores de outras localidades se interessariam mais com aquela realidade local.

Conforme disse anteriormente, é uma cadeia de vícios. Pergunte para alguém: “Quer fazer um intercâmbio para algum país europeu ou para a África?” Nem preciso falar qual será a maioria das respostas. Veja, também, o que vem acontecendo no próprio Itamaraty. As embaixadas brasileiras e consulados em alguns países africanos estão com cargos vagos porque, assumindo tais vagas, os profissionais demoram mais tempo para progredir na carreira. 

E não estou “tacando pedra pra todo lado”. É uma culpa minha, inclusive, pois nunca me foquei em estudos internacionais africanos. Só acho que a carapuça serve para muita gente… Sumariamente, a África precisa de um novo fôlego interno para desenvolver as suas próprias Relações Internacionais! Como consequência, o interesse de outros acadêmicos irá crescer vertiginosamente. Para quem tem vontade em fazer pesquisa e não sabe ao certo o que estudar, tente a África! Para quem curte RI e ainda não entrou na graduação, tente desenvolver esta área. Tem campo de estudo e será de extrema importância para as RI daqui dez, vinte ou trinta anos.


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