Briga de irmãs

Por

As Coreias voltam ao centro do noticiário internacional por causa de disparos de foguetes que causaram baixas civis confirmadas na ilha de Yeonpyeong. As notícias estão sendo debatidas à exaustão na mídia, os ataques foram condenados pela maioria da comunidade internacional, a ONU já vai agir prontamente (apesar da recusa norte-coreana) para evitar o escalonamento do conflito (ou seria re-escalonamento? Afinal, tecnicamente as partes ainda estão em guerra)… Então, vamos tratar a questão de um ângulo diferente – o dos norte-coreanos. Ou, pelo menos, tentar, dado que se trata do regime mais fechado do mundo. Por que esses atritos tão recorrentes esse ano?

Antes de tudo, a Coreia do Norte possui um dos maiores contingentes militares do mundo, e eles se orgulham disso – acreditam que caso entrem em conflito conseguiriam vencer no puro e simples combate corpo-a-corpo. Pessoal é o que não falta: o exército norte-coreano é um dos maiores do mundo, com cerca de 950.000 conscritos e mais 1,7 milhões de reservistas. Sem contar aquela possível ajuda chinesa, que certamente viria…

Ademais, enquanto o Ocidente se preocupava com Ahmadinejad e suas execuções, a crise financeira na Zona do Euro e os vazamentos da Wikileaks, esqueceu-se um pouco do programa nuclear norte-coreano. A Coréia do Norte sempre enveredou pela produção de armamento nuclear a partir do plutônio (facilmente obtível de resíduos de reatores nucleares), e eis que o mundo foi surpreendido pelas declarações do professor Siegfried Hecker, que confirmou uma sofisticada usina de enriquecimento de urânio (para propósitos civis, claro…). Uma semana depois, a Coreia do Norte já está em pé de guerra com sua vizinha do sul.

Essa “pujança” militar (real no âmbito convencional, hipotética no nuclear) contrasta com a pobreza e subdesenvolvimento da população local. Os relatos são de limitações a comodidades mundanas como televisão e telefonia. Não precisamos ir muito longe: basta lembrar da Copa do Mundo desse ano, quando o simpático escrete asiático, contrastando com as milionárias seleções europeias e americanas, foi treinar em um ginásio público por falta de verbas. A situação é relativamente calamitosa.

O que isso tem a ver com o conflito? A Coreia do Norte acusa a do Sul de ter iniciado os problemas, atrapalhando as conversações de paz mediadas pela Cruz Vermelha e sem evitar o confronto. É interessante ver que esse ano atribulado (mísseis, afundamento de navio, programa nuclear a todo vapor…) bate com a suposta pavimentação da sucessão de Kim Jong-Il, com a promoção de seu filho Kim Jong-un a general. Há até quem diga que o incidente dessa semana foi uma “demonstração de liderança” do futuro líder, em uma atitude de confrontação definitiva com o vizinho do sul. Ou, talvez, dada a penúria em que se encontra seu Estado, simplesmente lhe restou a saída arcaica da glória militar como último recurso e suspiro do regime comunista.

O que esperar disso? Se realmente esse for o estilo Kim Jong-un de governar, podemos esperar o pior nos anos vindouros. Mas, provavelmente, a todos esses fatores vai permanecer alheio por muito tempo o povo norte-coreano.


Categorias: Ásia e Oceania, Conflitos, Polêmica


0 comments