BRICS: Teoria x Prática

Por

E eis que entre ontem e hoje ocorreu a terceira cúpula de um dos grupos mais expressivos de países emergentes nas Relações Internacionais atuais: o BRIC, ou melhor, BRICS, agora que a África do Sul se juntou à Rússia, Índia, China e ao Brasil neste fórum multilateral. Esta reunião, ocorrida na cidade chinesa de Sanya, marcou o “ingresso formal” do representante africano nas discussões, e traz novamente à tona uma complexa reflexão envolvendo o (indesejável, mas com freqüência inevitável) antagonismo entre a teoria e a prática neste tipo de diálogo internacional.

Antagonismo no sentido de que as afirmações dos líderes se confrontam freqüentemente com as ações efetivas por parte dos membros deste grupo de tamanha representatividade nos dias de hoje. Apenas para que fique registrado: juntos, os países em questão representam 43% da população mundial, atraem 53% do investimento externo global e representarão 61% do crescimento do planeta em 2014 (entre outros dados impressionantes contidos neste link).

Mesmo a partir deste inegável alcance mundial e das elevadas taxas de crescimento que justificam o diálogo em prol do alinhamento de interesses destes países emergentes, vê-se, contudo, várias contradições que nos levam a questionar não a importância do diálogo, mas sim a real efetividade deste quando se trata da prática.

Na teoria, o presidente chinês afirma que “Sob o contexto de multilateralização política e globalização econômica, a paz, o desenvolvimento e a cooperação ainda são temas prioritários. […]”. Na prática, a China é uma contradição em si mesma no que se refere aos âmbitos político e econômico; e suas práticas comerciais dificultam enormemente o desenvolvimento de outros países, o que leva a questionar essa ânsia chinesa por uma “prosperidade comum do mundo”, por exemplo.

Na teoria, o BRICS se mostrou contrário aos recentes bombardeios na Líbia e à forma como a intervenção aprovada no âmbito da ONU foi conduzida. Na prática, a África do Sul votou a favor da resolução em questão e todos os demais membros do BRICS (inclusive China e Rússia, membros permanentes do Conselho de Segurança) optaram pela abstenção em tal pleito.

Na teoria, a Organização das Nações Unidas precisa de reformas profundas para ser mais eficaz e representativa. Na prática, Rússia e China (ambos representantes do BRICS que possuem poder de veto no Conselho de Segurança) parecem se eximir de manifestações/propostas enfáticas neste sentido que possam comprometer futuramente seus privilégios na tomada de decisões.

Vários ainda poderiam ser os exemplos para ilustrar o propósito deste post, qual seja a reflexão acerca do real impacto nas Relações Internacionais de grande parte das discussões em fóruns multilaterais como o BRICS. Teoria e prática constantemente se chocam. Coincidências recorrentes? Muito provavelmente não… o jogo de interesses existente merece uma análise menos simplista.

De qualquer forma, ao final dessa rodada de discussões do BRICS foi publicada a Declaração da Sanya, um documento que resume todos os pontos da reunião e as intenções/propostas para as principais áreas de interesse comum (leia na íntegra aqui). Segundo tal declaração, a expectativa é que o século XXI seja “marcado pela paz, harmonia, cooperação e desenvolvimento científico”. Esperemos, sinceramente, que esse mote não fique apenas na teoria…


Categorias: Brasil, Política e Política Externa


0 comments