BRICS: além da ficção?

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Nesta semana, em Durban, na África do Sul, foi realizada a V Cúpula dos BRICS. Intitulada “BRICS e África: Parceria para o Desenvolvimento, Integração e Industrialização”, debateu-se desde a promoção do desenvolvimento inclusivo e sustentável até contribuições para a paz e a segurança internacionais. Merece destaque, no contexto de crise europeia e de estagnação da economia mundial, a iniciativa de se criar um banco dos BRICS para financiar obras de infraestrutura nesses países. 

Isso significa que o acrônimo, já que não é propriamente um bloco ou organização, está avançando institucionalmente? Não. Por enquanto, os números impressionam. O PIB combinado dos BRICS atingiu 15 trilhões de dólares em 2012, o que representa a 21% do PIB mundial (em valores nominais), e o comércio entre seus países alcançou 282 bilhões de dólares no ano passado (em 2002, esse montante era de aproximadamente 27 bilhões de dólares). 

Qualquer análise de relações internacionais, hoje, leva em consideração a projeção mundial dos BRICS. Estudos prospectivos, como os do National Intelligence Council, tratam da emersão de um arranjo multipolar global, com os Estados Unidos menos dominantes e a ascensão, sobretudo, de China, Rússia e Índia, em que as instituições e estruturas tenderão a se adaptar à nova configuração geopolítica. Nesse sentido, melhorar a coordenação entre os países dos BRICS é questão chave para o futuro. 

Mas é também um ponto problemático. E, aqui, peço licença ao leitor para me intrometer no texto. Com base na experiência pessoal, pois fiz parte da delegação do Brasil em uma das reuniões preparatórias para a atual cúpula – III Reunião de Altos Representantes Responsáveis pela Segurança Nacional dos BRICS, 10 e 11 de janeiro de 2013, Nova Délhi –, penso que os BRICS ainda são uma ficção, uma narrativa imaginária sobre uma realidade (ainda) inexistente. Parafraseando o historiador britânico E. H. Carr, os interesses espreitam os bastidores da política internacional: o que realmente se quer nunca é dito explicitamente. 

A reforma das instituições de governança global (ONU, FMI, Banco Mundial, etc.) é traço marcante dos discursos dos BRICS. Na reunião de que participei, ouvi, com entusiasmo e em tom uníssono, de todos os representantes a necessidade e urgência de se realizar essa reforma. À noite, durante o jantar, disse a diplomatas sul-africanos e indianos que, enquanto Rússia e China não declararem apoio à inclusão de Brasil, Índia e África do Sul no Conselho de Segurança da ONU, persistirá a abstração discursiva. 

E por que não o fazem? Por razões históricas e circunstanciais, sob a ótica inextricável da luta pelo poder. China e Rússia disputam a mesma zona de influência, seja na eurásia, seja na África. China e Índia permanecem sobre a sombra do conflito fronteiriço pelo Tibete do Sul. Dois exemplos para ilustrar essa situação: os altos postos diplomáticos, na Índia, são ocupados por especialistas em China e, em diversos fóruns ou reuniões mundiais, é preciso negociar separadamente com chineses e indianos, como no caso da Conferência da União Internacional das Telecomunicações que ocorreu no ano passado, em Dubai, nos Emirados Árabes. Além disso, à medida que a população dos dois países superar a pobreza, haverá maior pressão sobre recursos hídricos, energéticos e alimentícios, tanto interna quanto externamente, e a rivalidade sino-indiana poderá agravar-se. 

Índia e Rússia também se envolvem em um jogo delicado, em que ambos tentam conter e contrabalancear o poder chinês e, ao mesmo tempo, o do outro. Na área de defesa, o governo indiano evita a dependência de produtos militares russos promovendo, adicionalmente, acordos com Estados Unidos e Europa. Brasil e China são fortes competidores e travam disputas nas áreas financeira e comercial, particularmente no chamado entorno estratégico brasileiro, envolvendo a América do Sul e a África. Há, ainda, iniciativas unilaterais, como a proposta de resolução russa encaminhada à Assembleia Geral da ONU para regulamentar o espaço cibernético, que não contam, necessariamente, com o apoio integral dos BRICS – o Brasil é contrário. 

Os BRICS devem seguir, em curto e médio prazos, como um acrônimo e ponto. Ele representa um agregado de características similares e de diferenças silenciosas, ao qual se acrescentam os interesses velados. Os ganhos são muito mais comerciais do que políticos, e os problemas de institucionalização e de falta de coordenação de alto nível permanecem como um entrave para avançar em sua consolidação. Por isso, a ficção dos BRICS é, na verdade, sua realidade: muita imaginação, pouca ação.

[Postagem do colaborador Giovanni Okado]


Categorias: África, Ásia e Oceania, Brasil, Economia, Política e Política Externa


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