Brasil: uma potência global?

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De acordo com uma equipe de analista do Council on Foreign Relations (CFR), uma organização composta por pensadores independentes e não-partidários, o Brasil é uma potência global, e não apenas regional. O sonho dos teóricos do pensamento geopolítico brasileiro se concretizou. O tal do “país-monstro”, categoria restrita de Kennan – há somente cinco “países-monstros” – que une vantagens comparativas naturais (população, território e recursos naturais) para a manutenção de uma economia avançada e diversificada, finalmente demonstrou sua monstruosidade, em uma era de incertezas e grandes transformações.

Ora, que o Brasil assumiu um protagonismo crescente nas relações internacionais, por meio da diplomacia “altiva e ativa” ou da diplomacia do espetáculo, ninguém duvida. A questão é se esse protagonismo classificaria o Brasil como uma potência global. O país detém as capacidades necessárias para sustentar esse status? Além disso, é preciso que a comunidade internacional o reconheça e o Brasil o assuma. De um lado, os países têm que dizer “Ei, Brasil, você é uma potência global”; de outro, o Brasil deve afirmar “Nós somos uma potência global!”

O relatório do CFR divulgado nesta terça, intitulado Global Brazil and U.S.-Brazil Relations (não deixem de ver o Overview), considera o Brasil uma das potências globais mais importantes de hoje e deste século. Com a exceção da capacidade militar, o documento ressalta a dimensão territorial, populacional, crescimento econômico, liderança dos países em desenvolvimento, combate à pobreza, etc., que habilitariam o país a ocupar esse status. O Brasil seria uma potência global de natureza não-militar, um interlocutor favorável entre os mundos desenvolvido e em desenvolvimento e contribuiria para a governança global. Eis as suas capacidades, não só materiais, senão ideacionais. (Vejam, respectivamente, este artigo e esta entrevista: 1 e 2)

Do ponto de vista do reconhecimento, será que os outros países aceitariam o Brasil como potência global? Um exemplo para tentar responder essa pergunta. O relatório é categórico ao expressar que o país deveria ocupar um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, mas Estados Unidos, China, França e por aí vai sempre falam a mesma coisa para não dizer absolutamente nada: “É muito importante o papel que o Brasil vem desempenhando no mundo…”. Não falam se apóiam ou não o pleito brasileiro. Ademais, nem a região sul-americana está totalmente de acordo com esse status para o Brasil. Perguntem para um argentino ou para um colombiano qual a opinião dele sobre isso.

E o Brasil quer ser potência global? É uma boa pergunta! Até o momento, o país pode se vangloriar de indicadores econômicos comparáveis aos de países desenvolvidos, mas os sociais deixam a desejar (confiram os dados no site do PNUD). Além disso, incorporar essa condição exige tratamento diferenciado do que até então dispõe, bem como assumir mais responsabilidades no plano internacional: fazer parte da OCDE, adotar outras tarifas na OMC e compromissos maiores com o Protocolo de Kyoto, etc. Às vezes, o país até pode se julgar como potência global, de sorte que obtenha um assento permanente no Conselho de Segurança, mas, em geral, prefere ser percebido como um líder do mundo em desenvolvimento.

Por enquanto, parece muito prematuro tratar o Brasil como potência global. Ou não? Fica a pergunta no ar.


Categorias: Brasil, Economia, Política e Política Externa


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