Brasil, mostra a tua cara!

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“Brasil, mostra a tua cara, quero ver quem paga, pra gente ficar Haiti.” HAITI? Pois é, Cazuza, os tempos mudam, as músicas, também. Somos brasileiros e somos haitianos. E como bons brasileiros não desistimos nunca! Nem do Haiti, nem do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Esta é a nossa cara, mas nós a mostramos? Oh, que dúvida cruel…


Em 2004, teve início a epopéia brasileira no Haiti. Era a inspiração guerreira e de palavras orgulhosas que o Brasil, à Camões, pediu para a ONU. E então, criou-se a MINUSTAH, a Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti, sob a liderança do governo brasileiro. Essa missão tem por finalidade pacificar e trazer segurança para o país mais pobre do continente. Apesar de críticas e discordâncias, no dia 1º de junho deste ano, ela completou cinco anos. Vejamos alguns aspectos do que se produziu nesse período.

Primeiramente, os gastos brasileiros dispensados desde o início da missão chamam a atenção: em cinco anos, gastou-se cerca de R$ 700 milhões, dos quais 40% foram repostos pela ONU. Sabem quantas escolas e hospitais foram construídos no Haiti com esse dinheiro? A fabulosa marca de nenhum. Essas despesas cobrem o treinamento de militares e eventuais testes de equipamentos bélicos. E depois o Brasil quer convencer o mundo que está trazendo a paz para os haitianos. Não me admira que um povo tão sofrido reclame de certas atitudes brasileiras e o faz com razão: enviam-se soldados e não médicos, bombeiros, enfermeiros, etc.. É, Brasil, parece que essa cara você não mostra.

Assim como não mostra o Janus bifronte de seus princípios: a não-intervenção e o engajamento em missões de paz. O Deus romano dos portões é contraditório na perspectiva brasileira. Depois de muito atraso, em dezembro do ano passado, o país finalmente publicou a sua Estratégia Nacional de Defesa. Por um lado, esta prevê a não-intervenção como um dos princípios que rege a conduta do Brasil no exterior, por outro, considera importante o emprego das Forças Armadas em operações de paz e humanitárias conduzidas por organismos internacionais.

Uma coisa anula a outra e, assim, passamos da epopéia à hipocrisia. Por que o Brasil brinca de soldado no Haiti, sob a insígnia de uma missão de paz que viola o seu princípio da não-intervenção? Simples: o país quer um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas. O Brasil quer ser gente grande só que se esqueceu, à Saint-Exupéry, que “todas as pessoas grandes um dia foram crianças.” O país não está preparado e ainda não amadureceu para assegurar a sua vaga no órgão. Estar no Conselho de Segurança é ter o dever de intervir em nome da paz e da segurança internacionais – embora haja certos membros que intervêm de modo indecente -, nós podemos de fato cumprir esta missão? Permitam-me lhes dar uma idéia do nosso efetivo militar (agradeço ao Álvaro Panazzolo Neto, aluno do 4º Ano de Relações Internacionais da Unesp-Franca por esta informação): nossos aviões de combate são da Guerra do Yom Kipur.

Outro aspecto que denota a negligência do Brasil quanto à segurança internacional é a sua “intensa” participação nas reuniões do Conselho de Segurança da ONU. Entre 2006 e 2008, foram realizadas 571 reuniões, das quais 29 contaram com a presença brasileira, ou seja, chegamos ao fantástico percentual de 5%. Além disso, o posicionamento brasileiro com relação aos conflitos internacionais (ou eventos de grande importância na área da segurança) é bastante precário: o Itamaraty pouco se manifesta. Ainda assim, continuamos pleiteando o nosso assento no salão de festas do top 5.

Enfim, chegamos à conclusão de que não há Haiti que salve o Brasil, não importa se a retirada das tropas brasileiras do país só poderá ser pensada a partir de 2011, conforme a previsão do Itamaraty. Alguém está escondendo a cara e isso tem trazido um custo muito alto, tanto para nós, brasileiros, como para os haitianos. É, amigos, segurança ainda não é o nosso forte, o que nos traz muitas confusões. Chega de esconder a nossa verdadeira cara!


Categorias: Américas, Brasil, Defesa, Paz, Segurança


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