Brasil e Argentina: amizade nas ruínas da rivalidade

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Atualmente, trata-se de um dos nossos relacionamentos bilaterais mais importantes. A Argentina é a 3º maior parceira comercial do Brasil, atrás somente de China e Estados Unidos. Em termos políticos, há uma importância talvez ainda maior. Contudo, a tônica que marcou historicamente as escolhas de ambos os países, desde o século XIX, teve como sombra importante a rivalidade com o vizinho. Em determinados momentos, a tensão foi além da habitual brincadeira relativa a uma inimizade mais teórica que propriamente prática.   

Durante o século XIX, em um cenário de consolidação nacional na bacia do Prata, consolidou-se uma ambígua relação que prevaleceu até meados de 1980. Naquela época, argentinos e brasileiros empreendiam estratégias com o objetivo de consolidar uma hegemonia sobre o Uruguai (antiga província Cisplatina, que conquistou sua independência em relação ao Brasil durante o Primeiro Império). Deste período, ficou conhecida a oposição brasileira a Rosas, líder da então província de Buenos Aires.   

Poucos anos depois, em um curioso desdobramento, consolidaram uma aliança militar contra o Paraguai. Logo, contudo, voltariam a escolher lados opostos. Trazendo o debate para tempos contemporâneos, a década de 1970 foi marcada pela discordância sobre projetos hidroelétricos. O Brasil queria construir Itaipu (em parceria com o Paraguai), enquanto a Argentina temia que o aproveitamento do rio Paraná pelos brasileiros prejudicasse a instalação da usina hidroelétrica de Corpus em seu território. Naquela época, apresentar ambos os países como sócios, em qualquer aspecto, seria uma proposta ousada.  

Em 1979, a resolução da questão do aproveitamento energético, firmada por Brasil, Argentina e Paraguai, marca um momento de inflexão. Logo no ano seguinte, brasileiros e argentinos assinariam um acordo sobre usos pacíficos da energia nuclear. Estes primeiros passos não representaram uma guinada para a cooperação, mas um período de estabilidade que possibilitou o fortalecimento de uma parceria até então impensada. As respectivas transições democráticas ensejam novas condições de aproximação, possibilitando negociações que levaram à constituição de um tratado de integração bilateral e, posteriormente, sua expansão para a configuração do Mercosul.  

Durante a década de 1990, novos mecanismos foram criados para fomentar o diálogo e consolidar uma parceria estratégica. A relação tampouco esteve livre de crises conjunturais, mas nunca mais se aproximou da rivalidade de outrora. A recente sintonia no âmbito bilateral em termos de agenda social aprofundou temas relacionados ao combate a mazelas no Mercosul e a abriu novas frentes de cooperação. Os críticos podem apontar para discordâncias quanto à liderança regional, às negociações multilaterais de comércio, entre outras. Os fatos, no entanto, corroboram que estas crises pontuais não afetaram a estabilidade estrutural do relacionamento bilateral.  

Não fosse assim, como poderiam existir projetos para construção de um reator nuclear e um satélite de observação conjuntos? Além da importância comercial, especialmente com o advento do Mercosul, rompeu-se o padrão anterior ao consolidar parcerias em setores abrangentes. Há, por exemplo, projetos nas áreas de defesa, de energia, de pagamentos em moeda local e de mobilidade estudantil. A rota da integração imobiliza a margem de manobra dos governos para reconduzir os países a uma rivalidade extremada. Nada mais resta do que tratar de manter diálogos de alto nível e estabelecer uma concertação para discordâncias. Consolidado o subcontinente como área de paz e livre de armas nucleares, ambos puderam se concentrar no que realmente interessa para seus povos.  


Categorias: Brasil, Política e Política Externa


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