Brasil doador?

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Em tempos em que o Brasil procura se afirmar internacionalmente enquanto país de primeiro mundo, cooperando inclusive com um recente pacote milionário de auxílio financeiro internacional destinado à Grécia (quem diria), mais um episódio pontual neste sentido merece destaque.


Durante essa semana, Brasília é palco da “Reunião Diálogo Brasil-África sobre Segurança Alimentar – Combate à Fome e Desenvolvimento”, cúpula que reúne representantes políticos africanos e brasileiros para debater meios de estreitamento das relações entre os países, principalmente no que tange o combate à fome e o desenvolvimento rural.

Nesta ocasião, o diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), Jacques Diouf, tem tecido apenas elogios à atuação brasileira no combate à fome, ressaltando que o número de pessoas que passam fome no Brasil caiu 28% nos últimos quatro anos, tal como dados estatísticos oficiais sugerem. Lula foi, inclusive, homenageado pela ONU como “Campeão Mundial na Luta contra a Fome”. Interessante, não?!

Realmente interessante é perceber como o Brasil tem buscado – de forma bem-sucedida, é importante notar – se destacar neste sentido no cenário internacional. E torna-se, pois, latente a necessidade de notar se existem internamente plenas condições para abarcar as enormes responsabilidades que um país “de primeiro mundo” deve inevitavelmente assumir perante os demais Estados.

Enquanto diz-se que o Fome Zero deve ser exportado para a África, cabe a reflexão para saber se efetivamente o programa – de caráter emergencial, em um primeiro momento – já pode ser visto enquanto política estruturante, e não meramente assistencialista na realidade do país, especialmente quando se trata da região nordestina. Será que temos reais condições de “exportar” esses conceitos?

Será que, efetivamente, o Brasil deixou de ser receptor para ser doador? Em ano eleitoral, afirmações categóricas neste sentido correm grandes riscos de se tornarem meros recursos de linguagem, caso o trabalho no longo prazo com as grandes carências que o país ainda possui não se efetive a despeito de arranjos políticos ou econômicos…


Categorias: África, Brasil, Política e Política Externa


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