Brasil: ator global e líder regional?

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Foi-se a desconfiança que nos impedia de identificar a Argentina como um potencial parceiro relevante. O Mercosul marcou, entre tantos elementos fundamentais, a aliança regional com o intuito de construir uma região de cooperação. Neste sentido, nossos projetos de desenvolvimento democrático, político, social e econômico caminhariam em sintonia e gerariam benefícios mútuos. Apesar da predominância do conceito integração regional, o tratado de Assunção marcou o fim de uma rivalidade histórica entre Brasil e Argentina, países com ambições e caminhos similares naquele momento.

Foi-se também o tempo em que o Brasil, assolado por questões urgentes no âmbito interno, pouco ou nada opinava nos rumos da comunidade internacional. Hoje a realidade é distinta. Como bem apontou Giovanni em um post recente, já existe o reconhecimento do Brasil como potência global por alguns especialistas. Em sentido similar, Celso Amorim, recém empossado ministro da Defesa, destacou a recomendação feita ao governo norte-americano de ajustar-se a um Brasil mais afirmativo e independente, em outras palavras, um ator verdadeiramente global. As recentes intervenções brasileiras nos mais importantes organismos internacionais corroboram nosso atual papel junto à comunidade internacional.

Há 20 anos, parecia que o Brasil estava destinado a ter como principais interlocutores: Argentina, Paraguai e Uruguai. A partir deste círculo, construiríamos as bases para o fortalecimento nacional e regional. Atualmente, cresce a convicção que nosso verdadeiro lugar é no salão principal junto aos Estados Unidos, a União Européia e os principais países emergentes. Nosso confinamento na ante-sala das organizações internacionais chegou ao fim. O que fora um sonho, parece formar um cenário crível e legitimado. Contudo, onde fica o projeto de integração e desenvolvimento regional? Aliás, é possível ser potência global sem ser um líder regional?

O evidente descolamento do Brasil em relação aos membros do Mercosul, em especial da Argentina, permitiu à nossa diplomacia alçar vôos mais ambiciosos. Recentemente, tive a oportunidade de conversar com alguns argentinos sobre o novo papel do Brasil, em maioria afirmavam que a Argentina ficou para trás e teríamos nos transformado nesse tal líder regional. Por outro lado, em contatos com colegas de Paraguai e Uruguai tive a impressão que o Brasil é visto como um “poderoso”, que pouco ou nada valoriza efetivamente a cooperação regional. Nossa ambição viria acima de tudo, o que nos permite inferir que há, em realidade, imposição brasileira em alguns temas importantes junto aos países menores.

Dessa maneira, o Brasil não poderia ser considerado um líder regional, uma vez que a maioria de nossos vizinhos não nos vê ou nos aceita como tal. Mais que isso, surge outra consideração importante. O Brasil que tanto defendeu um sistema mais justo, no qual todos os países sejam devidamente representados e relevantes, não estaria entrando para o seleto clube das potências e virando as costas para nossos interlocutores de outrora? Por exemplo, reivindicamos um assento permanente no Conselho de Segurança, mas isso o fará mais representativo ou somente nos tornará mais poderosos dentro de uma lógica igual? Será que adotamos a retórica que antes execrávamos, entrando no clube sem fazê-lo menos seleto, como defendíamos que deveria ser?


Categorias: Américas, Política e Política Externa


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