Boston Massacre

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A exatas duas semanas ocorria o mais recente evento de violência denominada pelas autoridades americanas como terrorismo. Ao que tudo indica, dois jovens tchetchenos aparentemente inseridos na cultura e sociedade ocidental, decidiram explodir uma bomba caseira dentro de uma mochila deixada próximo a linha de chegada da maratona de Boston, uma das mais importantes do mundo. Três pessoas morreram e centenas ficaram feridas.

Desde aquele momento foi iniciada uma caçada aos responsáveis pelo ataque, colocando à prova a competência da polícia americana em defender o país de terroristas. O desdobramento das investigações levou a dois suspeitos, logo perseguidos cinematograficamente pelo FBI, levando a morte de  um deles e a prisão do outro. A transmissão ao vivo da caçada aos suspeitos bateu recordes de audiência nos Estados Unidos e se transformou em assunto recorrente dos noticiários brasileiros, só competindo com as entrevistas dramáticas às vítimas sobreviventes e aos parentes dos mortos, que tentavam humanizar o espetáculo do cenário de guerra em Boston, cena muito mais recorrente na ficção de jogos eletrônicos e filmes de Hollywood.

Os motivos que levaram a explosão na maratona, que não seria a única pelo arsenal encontrado na casa dos jovens e pelo interrogatório a que foi submetido o sobrevivente, continuam obscuros. A tentativa de ligá-los a grupos terroristas, que foi desde vasculhar mensagens de redes sociais em que se diziam a favor da separação da Tchetchenia da Rússia até o desespero de trazerem parentes  dos acusados dos mais longínquos lugares a fim de que confessassem o que não se provou, foi totalmente ineficaz. Talvez a violência tenha sido causada apenas pela não inserção na sociedade, como defenderam alguns psicólogos às pressas para a imprensa, ou motivada por alguma psicopatia. Alguns experts no assunto, como que constatando o óbvio deixado em um primeiro momento de lado, defenderam que talvez esse tenha sido um caso de violência interna sem ligação a ideais políticos, e que talvez a sociedade americana, e todas as sociedades que copiam a sua forma de vida, sejam violentas. 

A ação individual de um louco munido de armas estaria longe de ser a primeira ocorrida em um país que desde a década de 80 não passa um ano sequer sem viver um massacre fabricado pelos chamados “assassinos em massa”, “serial killers” e outros tipos de criminosos. E os americanos vivem essa realidade intensamente, acompanhando os noticiários e perseguições aos suspeitos, assistindo filmes, séries fictícias e reais sobre cada caso recente. Há canais em que a grade de programação inteira é dedicada a esses notórios assassinos. Na verdade, não existe nada que a televisão ensine mais aos seus expectadores do que como funciona a sua violência, o seu modo de matar, a sua vida, as suas vítimas e o seu final. Talvez sejam os únicos a competirem com as celebridades em destaque e conhecimento popular.   

E com a ação desses assassinos também se constrói o ódio. O lobby pela pena de morte, recente em nosso país e feito pelo noticiário policial recheado de sangue, é mera cópia do modelo de televisão americano. Nesses programas, o lado humano do incidente estava por todos os lados, à vista ou escondido pelas câmeras. Poderia ser visto no desespero e medo dos habitantes de Boston, retirados por uma ampla força policial que checava de casa em casa o paradeiro do suspeito. E nas sombras pelo desdobramento do espetáculo, com a morte de Sunil Tripathi, confundido por meio de um perfil do twitter como um dos homens que apareciam no site do FBI como responsáveis pela explosão. O jovem foi encontrado morto três dias após o incidente, provavelmente assassinado por alguém que buscava vingança, ou ter se suicidado pela culpa atribuída a ele e as constantes ameaças. A histeria causada pelo sensacionalismo e o circo montado em cima do atentado, já um evento grandioso e trágico por si só, chegava ao ápice de ocasionar uma cena de (in)justiça com as próprias mãos ou de pré-julgamentos, dignas da barbárie total, no contrastante ambiente do país mais desenvolvido do mundo. A violência é fortemente propagada por todos os lados.

Mas a morte de um inocente não aplacou a festa. A comemoração nas ruas de Boston poderiam ser vistas como um alívio ou até mesmo uma demonstração de patriotismo dos americanos, felizes com o resultado final da caçada. No entanto, também não podemos deixar de considerar todo o deslumbramento com que essa sociedade trata a violência, desde os cinemas e os seriados de TV a recordes de compras de armas. Os maiores defensores da democracia americana  para a população estavam mais uma vez lá, fardados. Por meio da bala e a algema anularam o medo. Mas como poderiam evitar que outro louco logo surja, mandando pelos ares expectadores de uma maratona, ou um shopping center, ou uma praça? 

A foto acima é de uma camiseta promocional da Nike, com os dizeres “Boston massacre” (massacre de Boston, em português), em analogia a um jogo de futebol americano realizado na cidade. A linguagem da violência transportada a outras áreas da vida, principalmente ao esporte, não é mera coincidência e sim parte de um processo continuo da transformação dela em bela e banal. A maior parte do tempo isso passa desapercebido por todos nós, como algo bastante comum. Mas nem sempre isso ocorreu. Na verdade, as analogias a violência são bastante recentes, desde a década de 70 para ser mais exato. Anteriormente a isso, se você se direcionasse a outra pessoa e afirmasse que no dia anterior havia ocorrido “um massacre” no jogo de seu time, certamente deixaria a outra pessoa em pânico. Excitação pela violência, achar legal a vida de um assassino ou as mortes em uma guerra seria uma impossibilidade ainda maior. Mas todos nós assistimos isso, e na maior parte do tempo gostamos.  

De onde vem o gosto pela violência, desde quando ela se transformou em algo tão atraente? Evidentemente, não quero cometer o erro de culpar o cinema e a TV pela violência, mas ao contrário, utilizá-lo como um espelho do que nos interessa ou que somos levados a nos interessar, de como vivemos. E vivemos tempos de exposição, em que todo acontecimento se torna um evento midiático, uma história de cinema. A retirada das camisetas das lojas foi um dos raros dias em que os americanos não acharam graça nos filmes de ação. Nada também que a transmissão da CNN a perseguição dos suspeitos não pôde mudar. E se depois de algumas horas descobrissem que aqueles jovens suspeitos eram inocentes? A emoção a frente da TV teria sido válida, as filmagens fechadas nos carros de guerra de última tecnologia e nos soldados teriam valido, enfim, para o atraente espetáculo da violência teria sido mais um dia de contentamento para os seus criadores e o seu público sempre cativo. 


Categorias: Cultura, Estados Unidos, Polêmica


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