Bósnia, 20 anos depois: uma guerra inacabada? [Parte 3]

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[Este é o post que encerra a série sobre a Guerra da Bósnia aqui na Página Internacional. Para compreender a sequência, acesse os textos anteriores aqui e aqui.] 

A Bósnia é uma ideia…

 
 
 
 
 
 

O título do post remete à seguinte citação de Alija Izetbegovic, o primeiro presidente da Bósnia independente e importante articulador dos Acordos de Paz de 2005: “What we call Bosnia is not only a piece of Earth in the Balkans. For many of us, Bosnia is an idea. It is the belief that the people of different religions, nations and cultural traditions can live together”.

De fato, a Bósnia representa – ainda hoje – uma ideia, ou talvez mesmo um ideal. Um ideal de convivência e de respeito ao multiculturalismo, à multireligiosidade. Contudo, o final da guerra parece não ter sido acompanhado do começo de uma nova era em que todas as partes envolvidas se encontrem em busca desse ideal. Apesar da reconstrução física quase completa de Sarajevo (foto), os esforços de reconciliação e reconstrução pessoal ainda são essenciais. Por lá, hoje, a guerra não se vê, mas se sente… [Interessante testemunho em francês intitulado “Dans les esprits, la guerre n’est pas terminée” disponível aqui.] 

A fragilidade política interna entre a Federação Bósnia-Herzegovina e a República Sprska ainda existe no país, mas a apresentação de uma possível candidatura à entrada na União Europeia é um objetivo comum e, de certa forma, “unificador”. O governo promete mesmo apresentar sua candidatura ao ingresso ainda em junho deste ano… 

Entretanto, mesmo que o reforço à estabilidade e à prosperidade nos Bálcãs seja um dos objetivos do bloco – ao qual a Croácia ingressará no próximo ano e para o qual Macedônia, Sérvia, e Montenegro já postularam ingresso – a visão da Bósnia como país-membro ainda se encontra relativamente distante da realidade. Os desafios internos de luta contra o desemprego, a pobreza e o clientelismo político são ainda enormes e o próprio entendimento por parte da sociedade civil do significado de fazer parte da União Europeia tem que ser construído. 

Este clima nacional de “mudanças e permanências” demonstra, finalmente, a complexidade e as incertezas que envolvem o processo de desenvolvimento da Bósnia em um período pós-guerra ainda tão recente. Refletir sobre as perspectivas de um futuro próspero para este país tão rico em cultura e diversidade significa ter esperança de que as divergências sejam valorizadas (e não mais desprezadas) na busca por melhores condições de vida a todos os bósnios – sejam estes de origem sérvia, croata ou muçulmana. 

O ideal bósnio precisa, de fato, se converter em prática. 

[Duas indicações de filmes interessantes sobre o tema: o premiado e chocante “No man’s land” (realmente recomendado!) e o recente “In the land of blood and honey”, produzido por Angelina Jolie.] 


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1 comments
Anonymous
Anonymous

Bianca Fadel,Maravilhosos textos. Parabéns.Harley