Bósnia, 20 anos depois: uma guerra inacabada? [Parte 2]

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[Este é o segundo post de uma série de três a respeito da Guerra da Bósnia, iniciada há 20 anos e cujas consequências são visíveis até hoje. Acesse aqui o primeiro texto para acompanhar a sequência.]

Srebrenica, a proteção que não existiu… 

Srebrenica. Uma cidade que será para sempre associada às terríveis lembranças de um genocídio, de uma falsa sensação de proteção, de um sentimento inexplicável de desumanidade. Ao entrar na cidade e encarar imediatamente o memorial em homenagem às milhares de vítimas, faltam palavras para comentar o quão pesado o ambiente se torna… a forma como tudo em volta parece reforçar a dicotomia cotidianamente implícita entre a pequenez de cada ser humano e a grandiosidade das consequências que seus atos podem adquirir – para o bem ou para o mal. 

A título de contextualização, Srebrenica foi o palco de um dos acontecimentos mais marcantes durante a Guerra da Bósnia (senão o mais marcante). Em Julho de 1995, 8372 Bosniaks (bósnios muçulmanos) foram “selecionados” em meio aos milhares de refugiados que se encontravam na cidade para serem executados pelas forças sérvio-bósnias, lideradas pelo General Ratko Mladic. [Veja breve histórico em inglês aqui.] 

A intenção clara de eliminar um grupo específico (homens e meninos – acima de 12 anos – muçulmanos) e o consequente massacre cometido pelas forças militares da Sérvia são elementos que permitiram à Corte Internacional de Justiça caracterizar “formalmente” a violência cometida em Srebrenica como genocídio, apesar das constantes discussões conceituais no âmbito do Direito Internacional. 

Srebrenica representa o maior massacre vivenciado em território europeu após o Holocausto durante a Segunda Guerra Mundial, no contexto de uma guerra que perdurou por três anos e devastou a Bósnia, marcando tristemente a história dos Bálcãs. E em meio a tantos aspectos que poderiam ser apontados na análise deste caso, uma dimensão específica merece ser destacada: o (não) papel das Nações Unidas e da comunidade internacional. 

Uma das maiores contradições que permeiam o caso de Srebrenica é o fato de que em 1993, a cidade foi declarada zona protegida (em inglês, “safe haven”) pela ONU. Desta forma, de 1993 a 1995, as Forças de Paz (Peacekeeping) se encontravam no local (com um contingente absolutamente limitado de soldados holandeses) para proteger uma população que se aglomerava aos milhares. Diante do anúncio de proteção internacional, Srebrenica se tornou, em um dado momento, o destino de aproximadamente 40 mil refugiados advindos de todas as partes da Bósnia. 

Entretanto, com recursos extremamente limitados, apenas 5 mil refugiados que se concentravam na cidade receberam auxílio em um galpão sob responsabilidade da ONU. Hoje conservado como parte do Memorial, o galpão exala a impotência e, principalmente, a ineficiência internacional em lidar com a situação. Quando parte dos Peacekeepers foram feitos reféns em estratégia militar sérvia, a esperada “proteção internacional” que já era absolutamente frágil se tornou inexistente, complacente, indiferente. Em julho de 1995, o caos foi instaurado na cidade com a ofensiva sérvia. 

Ao escutar as impressões de um guia que sobreviveu ao genocídio após ter optado, ainda menino, fugir pelas montanhas (como muitos, aliás, sendo que a maior parte não foi bem-sucedida), a impressão que fica é que a população local foi “traída” pela comunidade internacional. A esperança de proteção logo se tornou ilusão – ou pesadelo.

No cemitério (em frente ao galpão), foi estabelecido um Memorial com os nomes de todas as 8372 vítimas do genocídio (foto acima). Contudo, nem todos os corpos foram ainda encontrados – fossas comuns de 17 anos atrás ainda não descobertas tornam o genocídio presente no dia-a-dia local e nos fazem sofrer um choque de realidade ao perceber como este acontecimento é recente. 

Será que, durante essas quase duas décadas que se passaram, a comunidade internacional se tornou mais apta a lidar com situações similares? Uma questão ainda em aberto, a meu ver. Srebrenica permanece, pois, em nossas memórias como um triste registro do que nunca deveria ter sido permitido e do que não se pode, de forma alguma, cogitar novamente. 


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