Bósnia, 20 anos depois: uma guerra inacabada? [Parte 1]

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Neste 06 de abril, data que marca o vigésimo “aniversário” do início da Guerra da Bósnia (1992-1995), gostaria de iniciar aqui no blog uma série de 3 posts a respeito desta temática. Tomo a liberdade de desenvolver estes posts também com o intuito de compartilhar minhas impressões pessoais sobre o assunto, após ter tido uma interessante experiência de conhecer pessoalmente a realidade da Sérvia e da Bósnia nos últimos dias.


Há exatamente 20 anos, começava o conflito internacional mais desastroso depois da Segunda Guerra Mundial. Balanço estatístico simplificado: 3 anos e meio de guerra; 1395 dias de cerco à Sarajevo e 11.541 mortos na cidade; mais de 8.000 Bósnios-muçulmanos vítimas de um genocídio em Srebrenica; mais de 100.000 mortos no total; e centenas de milhares afetados direta ou indiretamente pelos conflitos. [Ótimo artigo em francês disponível aqui.]

Os conflitos dos Bálcãs nos anos 90 retratam basicamente as consequências catastróficas de uma Iugoslávia que, após a queda do regime autoritário de Tito, viu florescer o nacionalismo, as crenças exacerbadas e o preconceito étnico-religioso que estavam “adormecidos” sob um manto de unidade política.

Com o fim da Guerra Fria e do comunismo – e em meio a uma transição política inacabada – a década de 1990 viu florescer as lutas por independência das repúblicas que formavam a Iugoslávia (Eslovênia, Croácia, Sérvia, Montenegro, Macedônia e Bósnia-Herzegovina), além das duas províncias autônomas (Voivodina e Kosovo). [Para um panorama histórico mais detalhado a respeito dos conflitos, acesse os artigos disponíveis aqui e aqui em inglês.]

Neste contexto, a Bósnia podia ser considerada uma “mini-Iugoslávia”, com uma diversidade étnica notável em seu território à época: aproximadamente 31% Sérvios Bósnios; 43% Bósnios-muçulmanos (Bosniaks) e 17% Croatas-Bósnios (confira no mapa abaixo). Diante da declaração de independência bósnia em 1992, a reação sérvia foi imediata e o início deste sangrento conflito teve como resultados os tristes números já apresentados. [Breve cronologia disponível aqui.]

O cerco a Sarajevo (o mais longo da história) deixou resquícios que permanecem até os dias de hoje. Apesar de ter praticamente todos os seus prédios e espaços públicos reconstruídos, a atmosfera na Bósnia ainda é, de certa forma, de tensão. Politicamente, o país é dividido em duas entidades: a República Srpska e a Federação da Bósnia-Herzegovina, estando Sarajevo no centro da divisão (sim, ao andar pelas ruas de Sarajevo de repente você se dá conta que está “no lado sérvio”, veja mapa aqui).

As dificuldades de diálogo entre os dois lados são visíveis, tanto no círculo político quanto em meio à população em geral. As crianças que sofreram a guerra hoje são os jovens que sofrem com o desemprego no país. A (tardia e ineficiente) presença internacional em resposta aos conflitos no país é considerada uma “ironia” por uma senhora de meia-idade que me vê com um panfleto da EUFOR em mãos – trata-se da força de estabilização da União Europeia que permanece no país, mas que à época do conflito não existia…

A história ainda hoje é ensinada de formas diferentes nas escolas de acordo com a região: dependendo de onde se cresce e se estuda nos Bálcãs, tem-se uma visão distinta sobre a guerra, suas motivações e seus “vencedores”. 20 anos depois, ainda estamos tratando de uma guerra inacabada? Parece que sim. Uma das frases mais conhecidas de Alija Izetbegovic, primeiro presidente da Bósnia independente e um dos principais articuladores dos Acordos de Paz de Dayton (1995), é a seguinte: “There are no military winners. Everybody won and everybody lost”. Indeed.


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