Bolívia Motorizada

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Vamos falar de um assunto meio polêmico. Anda causando certo alvorço na mídia brasileira um decreto do presidente da Bolívia, Evo Morales. O motivo? Tal decreto anistia carros irregulares (leia-se: contrabandeados) em território boliviano mediante o pagamento de uma pequena taxa. A intenção é livrar a cara de muita gente e conseguir um pouco mais de arrecadação pra aliviar a secura nos cofres públicos do vizinho andino. É claro que a maioria dos vizinhos não gostou nada dessa notícia – carros contrabandeados são na maioria roubados em países como Brasil e Chile e, pior, servem como moeda de troca para a entrada de narcóticos bolivianos.

É claro que isso causou bastante comoção. A mídia aponta Morales como tresloucado, reclama da fraqueza do governo em permitir algo dessa natureza e prevê como os roubos a veículos brasileiros vão aumentar para alimentar essa economia macabra. O governo rebate enviando a La Paz listas de carros roubados para que não sejam legalizados (pouco efetivo, já que chegam com placas frias ou numeração raspada). Parlamentares exigem explicações do Itamaraty e cada vez mais a posição do Brasil parece complicada nessa questão.

Tem um aspecto bem interessante nesse rolo todo. Podemos reclamar o que for sobre essa medida do nosso vizinho (ao meu ver, bastante descabida, de fato). Agora, acho exagero reclamar do Brasil não ter pressionado para que isso não ocorra. É um assunto que nos afeta diretamente, mas Soft Power à parte, se trata de legislação interna e o Brasil não tem absolutamente nada em que pressionar ou intervir nisso. É simples assim. O que ele pode fazer, que é a integração de inteligência, como a questão de repassar as listas de veículos roubados, já está sendo feito. Talvez seja o caso de melhorar isso, como por exemplo, uma fiscalização mais rigorosa das fronteiras (afinal, carros não são coisas que se passam escondidas debaixo da blusa ou em fundo falso de motos na Ponte da Amizade). Por sinal, já passou da hora de fazer algo assim, e não apenas por causa de carros roubados…

Agora, alardear como vejo por aí que o Brasil “deixou” Morales agir como quis é no mínimo leviano. Se o Brasil deve ser criticado, vamos criticar pelo motivo certo, como o débil controle de fronteiras, em vez de ficar nos aspectos mais personalistas e descabidos de críticas como o governo foi passivo ou deixou de agir com relação a legislação interna de um Estado soberano.


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