Boa educação?

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O que é um insulto? Pode ser uma expressão usada para expressar algum descontentamento e frustração, praguejando contra si mesmo ou o universo, mas geralmente é algo utilizado para ofender o interlocutor. Rebaixar suas características morais, apontar algum sinal de inferioridade física ou social, depende do contexto e do entendimento do que está sendo comunicado – amigos podem se ofender com naturalidade, por vezes sem o sentido de insulto, mas experimente fazê-lo a um colega de trabalho.  Existem contextos que não podem aceitar esse tipo de conduta, e um deles é a diplomacia. Por isso causa tanta perplexidade a inusitada declaração de um porta-voz de Israel sobre a crítica brasileira ao conflito em Gaza: após o Itamaraty ter chamado para consultas seu embaixador em Tel Aviv (o que é considerado um sinal de alerta nas relações diplomáticas), Israel qualificou a atuação do País como “um anão” no cenário internacional. A resposta veio polida, por meio do chanceler Luiz Alberto Figueiredo, classificando a morte de civis como inaceitável e desproporcional. A tréplica veio em tom de deboche lembrando a lavada da Alemanha sobre o Brasil na Copa como exemplo de desproporcionalidade, e parece que novos capítulos virão.

É interessante notar que a diplomacia brasileira é uma das mais cautelosas do mundo – mantém boas relações com todos os países da ONU, evita opinar sobre temas mais arriscados ou que possam ter repercussões futuras, como a responsabilidade de proteger, e apresenta um dos corpos diplomáticos mais capacitados (basta comparar com as coisas que apareceram quando vazaram as correspondências norte-americanas…). Por isso soa tão… estranho, para dizer o mínimo, esse tipo de indelicadeza. É como se fosse gratuita.

Desde tempos antigos, o respeito e decoro fazem parte da relação entre nações estrangeiras com representantes oficiais – nos tempos dos reis e imperadores, o embaixador representava o papel do próprio soberano! Porém, a evolução histórica mostra que as práticas se adaptam ao tempo, e Hedley Bull já dizia que no século XX temos uma mudança bem atípica nesse cenário que ele denominava de “diplomacia do insulto”. Basicamente é usar os canais oficiais para desqualificar países adversários em uma guerra de palavras, por vezes de baixo calão. Basta lembrar do enxofre do diabo sentido por Hugo Chavez na ONU, Kadaffi rasgando a carta da instituição ou a Coreia do Norte chamando Barack Obama de um “macaco malvado”. É possível notar que esse fenômeno acontece por conta  de outro fenômeno, o da diplomacia presidencial, em que uma figura única concentra o papel de decisão e interlocução de questões da sua política externa, sem muito controle do corpo diplomático. Mas no caso de Israel, o descontentamento brasileiro vem justamente pelo ultraje de ter sido algo lançado pelo porta-voz do MRE deles.

Que tipo de motivação leva a essa resposta? Uma das justificativas de Israel é combater terroristas. Em uma interpretação maniqueísta, o Brasil expressar indignação com a morte de mulheres e crianças faz com que seja simpático aos que Israel denomina terroristas? A preocupação com o respeito a garantias fundamentais (sem esquecer do adágio de que em casa de ferreiro o espeto é de pau…) é sintoma de uma diplomacia irrelevante? Esta parece ser a lógica que transparece no comunicado. O que surpreende, visto que por meio do Mercosul o Brasil é um dos poucos países com acordos de livre-comércio com Israel. Ou ainda o fato de que um dos principais articuladores da criação do Estado de Israel foi o brasileiro Osvaldo Aranha, e que o país presidiu a sessão da ONU que o criou. Considerar um país responsável pela sua existência como irrelevante parece, no mínimo, contraditório.

A troca de ofensas, por mais brandas ou debochadas, mostra que a situação de Gaza chega a um ponto em que a indignação supera a ponderação. E deixa transparecer a blindagem que existe no cenário internacional à atuação israelense. Basta verificar o resultado da votação de uma resolução do Conselho de Direitos Humanos da ONU (que, francamente, não tem muita credibilidade sendo que já foi presidido por verdadeiros campeões da justiça como a Líbia) para o estabelecimento de uma investigação de crimes humanitários nessa ofensiva israelense em que os EUA foram o único país contrário à resolução (e com os aliados europeus se abstendo, em maioria). No fim das contas, Israel não precisa se preocupar muito com dissabores diplomáticos e pode subir o tom de voz quando quiser pelo simples fato de ter um aliado superpoderoso que pode e vai abafar qualquer contratempo. Mas também fica claro que, ao emendar às justificativas de praxe uma carga de insulto, tenta-se mudar o foco da questão ou evidencia-se a falta de argumento. Como diz a sabedoria popular, “apelou, perdeu”. E isso não contribui em nada para legitimar a posição de Israel nesse conflito em que cada vez mais parece lhe caber o papel de vilão.


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