Batata quente

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Quem não te conhece que te compre!

Quando eu era criança, havia uma brincadeira chamada batata quente. Era basicamente a história de uma batata (representada por um objeto qualquer, como uma pedra) que passava pelas mãos de várias crianças até que “queimasse” na mão de alguém.

E não é que a batata quente chegou à Brasilia? E no caso, atende pelo nome de Cesare Battisti, o famigerado italiano que cometeu / não cometeu crimes de sangue na Itália. Polêmicas à parte, dada benvolência do nosso ministro da justiça, o italiano recebeu refúgio político no Brasil.

Detalhe: Tarso Genro converteu-se ao humanismo, talvez, após as críticas recebidas pela extradição daqueles cubanos que queriam refúgio no Brasil… Não imagino que eles foram recebidos com flores pelo Fidel Castro.

O ministro, tal como uma criança pega uma pedra e a transforma na batata, pegou o caso do italiano que estava escondido das autoridades italianas aqui pelos trópicos e o transformou num caso de repercusão mundial. Não podia ter Tarso Genro simplesmente concedido algum tipo de refúgio ao Battisti sem ter alarmado que ele estava sendo perseguido justamente pelo governo da Itália – governo esse eleito democraticamente?

Não, claro. É muito mais legal assumir o papel de integrante da Liga da Justiça do Sul e desafiar o norte desenvolvido, rico e opressor. Afinal, quando os perseguidos são os aliados cubanos, deportação neles!

O ministro criou a batata. E quem botou fogo nela foi a mídia. E com razão, afinal, como não se falar do caso do “refúgio” dado a um indívido condenado por crimes comuns, mesmo com orientação contrária do Conselho Nacional de Refugiados e depois do tal caso dos cubanos? É claro que também teve a mãozinha dos italianos, da oposição, enfim, mas aí entramos no campo das conspirações…

Aí a batata passou para as mãos do Supremo Tribunal Federal, o guardião da nossa Carta Magna. E os nobres ministros arrumaram um jeito muito brasileiro, uma verdadeira gambiarra jurídica para passar a batata quente adiante: cabe ao presidente Lula decidir, mesmo com a decisão de que o refúgio é ilegal.

Ora, mas para que serve, então, o Supremo? Teoricamente, se a instância máxima da justiça brasileira decide que uma decisão do governo é ilegal, como pode o governo, em seguida, fazer o contrário, e ainda com a benção desse mesmo organismo? Não faz sentido nenhum.

E se um cidadão comum decide não cumprir a decisão dada pelo STF? O que faz com que o presidente da República possa ter essa autonomia? E depois os magistrados reclamam que o Executivo vive a passar por cima da isonomia dos poderes assumindo atribuições do judiciário…

E a batata passou para as mãos do Lula. E agora, Lula? Dar o refúgio ao homem e seguir com o descurso de adolescente rebelde que quer mostrar independência ou cumprir a decisão do Supremo?

Na brincadeira original, uma criança vendada, que não sabia nas mãos de quem estava o tubérculo, gritava: “queimou!” e aí o infeliz que estivesse com ele nas mãos perdia o jogo.

Mas em Brasília é diferente: em mais um jeitinho, o governo tende a arrumar uma desculpa humanitária para deixar o Battisti aqui, sem a condição de refugiado político, não se queimando nem um lado, nem outro. Ou seja, alguém não vendado, que sabe muito bem na mão de quem está a batata e não querendo que ele se queime, grita: “Esfriou!”.

E aí o Lula não se queima, o STF não se queima, o ministro não se queima, a “democracia” segue normalmente, o caso deixa de vender papel, a mídia deixa de falar sobre o assunto e o Brasil segue seu futuro… Com ou sem batatas quentes.


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