Batalha Naval

Por

Estava eu preparando minha postagem sobre as eleições colombianas quando abro o navegador e me deparo na página inicial com a mais nova traquinagem de Israel, brincando de batalha naval com os navios de ajuda humanitária que levavam 10 mil toneladas de mantimentos para o território sob embargo da Faixa de Gaza. Como não pode deixar de ser, vamos tratar novamente do barril de pólvora do Oriente Médio.

Mesmo por que a desproporcionalidade do ocorrido é espantosa. As notícias sobre o fato ainda são recentes e muita água vai rolar, mas há algo de estranho. Que os simpatizantes palestinos não deviam ser santinhos ninguém duvide, há evidências de que havia armas leves com tripulantes e que houve troca de tiros; mas, chegar ao ponto de atacar uma frota civil do modo como ocorreu, com soldados de elite e tudo mais, não apenas parece como demonstra um flagrante exagero no uso da força. Mesmo por que, até onde se sabe, os navios estavam em águas internacionais, e as forças israelenses não teriam autoridade de abordar os navios como fizeram, violando o direito internacional.

A comunidade internacional está condenando veementemente o ataque, inclusive países que em geral apóiam Israel como a França e a Alemanha, além dos islâmicos de praxe. Mesmo os EUA, comedidos aliados, aguardam para se pronunciar mais contundentemente, sem se alinharem automaticamente como era de se esperar. Mais do que todos, a Turquia parece ter razão em se indignar com o fato, chegando a convocar reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU. O país com (até onde se sabe) o maior número de vítimas, com um navio sob sua bandeira liderando e que apoiava oficialmente o comboio é também um dos poucos países próximos dos árabes que se esforça para mediar os conflitos e busca manter boas relações com Israel. De pouco valem os lamentos sobre as mortes: Ancara é taxativa ao declarar abertamente o ocorrido como “terrorismo de Estado” e um duro golpe nas relações entre os países, meio que dilapidadas com a mediação turca (considerada ingênua por Israel) no caso do Irã.

E no fim voltamos ao tema do momento! O Irã de novo? Pois é, todos sabem como Israel condena o programa nuclear dos aiatolás e vive acusando-os de mancomunarem-se com terroristas do Oriente Médio. O fato é que o país está pressionado por diversos fatores, principalmente a questão do programa nuclear iraniano. Por outro lado, uma das principais desculpas para o desenvolvimento de uma eventual bomba por Ahmadinejad seria contrabalancear o poderio nuclear israelense (confirmado meio que de maneira oficiosa há um certo tempo, com denúncias de ofertas de armas nucleares à África do Sul). Isso tem levado a uma pressão muito grande sobre Israel para abandonar suas pretensões nucleares, já no âmbito da discussão do TNP. Já não bastasse toda essa dor de cabeça, agora Israel tem que lidar com uma ONG abusada que quer abastecer terroristas na sua vizinhança e interferindo em seus negócios domésticos, o embargo a Gaza.

Será que essa “ajuda humanitária” não teria algo mais? Ou é simples e pura paranóia israelense que leva a atacar um navio cheio de civis (incluindo parlamentares e observadores da União Europeia) e ajuda humanitária? A Turquia estaria pagando o pato por ter se aproximado daqueles que querem varrer Israel do mapa? Seria uma espécie de recado nada sutil aos que estão contra Israel, ou apenas um sinal da truculência que aguarda os inimigos do povo escolhido? São muitas dúvidas para poucas respostas, ainda.

O ocorrido pode ser apenas um breve reflexo do estado de coisas naquela região, em que Israel está se sentindo ameaçado de maneira nunca antes vista. Uma invasão ao Irã não deixa de ser factível (como já tratado anteriormente), e a tragédia no Mediterrâneo pode ser apenas um avant-première de como a pressão pela sobrevivência misturada ao fervor da soberania podem levar a medidas extremas em um futuro próximo.


Categorias: Assistência Humanitária, Direitos Humanos, Oriente Médio e Mundo Islâmico