Babel sudanesa

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Segundo o mito bíblico, a Torre de Babel teria sido uma tentativa de os descendentes de Noé eternizarem seus nomes, construindo uma torre tão alta de forma que pudessem alcançar o céu. Por conseqüência de tamanha soberba, o castigo de Deus aos homens foi a diversidade de idiomas, dificultando-lhes a comunicação e espalhando-os por toda a Terra…


De forma metafórica, alguns elementos deste mito podem ser utilizados para uma análise acerca da atual situação do Sudão, um dos países africanos menos desenvolvidos no mundo e assolado por uma das maiores crises humanitárias dos últimos tempos. A artificialidade das fronteiras na África advindas do processo de colonização do continente pode ser considerada uma demonstração da soberba humana em sua ânsia colonizadora, desprezando as características humanas locais para a constituição fronteiriça – estabelecida unicamente de acordo com interesses estratégicos e econômicos. Desde então, o castigo que os próprios homens atribuíram (inevitavelmente) a si mesmos foi a falta de diálogo entre comunidades vizinhas – muitas vezes localizadas sob a alcunha de um mesmo país –, situação em que se enquadra a população sudanesa.

Desde 1956, quando o Sudão se tornou independente, guerras civis entre as regiões norte e sul têm marcado a história do país, somando mortes já na casa dos milhões desde então. Estas regiões possuem muitas diferenças entre si, situação que dificulta enormemente o diálogo entre os povos. Dentre as grandes distinções, a religião se enquadra como uma das principais, sendo o norte predominantemente islâmico e o sul predominantemente cristão. Também as riquezas naturais do país (localizadas notadamente no território ao sul) causam desentendimentos na região.

No ano de 2005, foi firmado um acordo de paz entre o norte e o sul sudaneses de forma a amenizar a situação de insegurança local – acordo este que previa a realização de um plebiscito a respeito da possibilidade de independência de dez províncias do sul do Sudão em relação ao restante do país (mapa abaixo).

Desta forma, durante a próxima semana aproximadamente 3,2 milhões de eleitores decidirão o futuro do Sudão, quando ocorrerá o aguardado plebiscito. Acredita-se que o cenário mais provável é efetivamente a independência da região sul, o que poderá caracterizar a criação do 54º país africano no mundo. Se isto acontecer, o Sudão terá uma diminuição de aproximadamente 25% de sua área – compreendendo riquezas naturais valiosas, diga-se de passagem – e o equivalente de sua população.

Muitas dúvidas ainda pairam sobre esta situação, a qual tem sido acompanhada pela Organização das Nações Unidas e pela comunidade internacional em geral. Muitos também são os desafios humanitários, econômicos e políticos existentes neste país africano, assolado por tamanha dificuldade de diálogo entre os próprios nativos. Esperemos que, a partir do resultado do referendo, essa situação de “babel sudanesa” existente entre o norte e o sul do país visualize um desfecho que possa beneficiar as partes envolvidas e propiciar – ainda que aos poucos – a construção da paz na região.

[UPDATE (07/02/2011): Independência alcança índice favorável de 98,8% em referendo no sul do Sudão.]


Categorias: África, Conflitos, Política e Política Externa


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