Avançando para o passado e voltando para o presente

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Recentemente, tivemos mais uma tentativa do governo de nos levar ao passado ao lançar uma medida para aumentar em 30 pontos percentuais o IPI sobre os carros importados


Em primeiro lugar, a abertura do mercado brasileiro aos importados foi o que nos possibilitou deixar de andarmos em carroças há quase 20 anos e hoje conhecermos carros melhores, mais bonitos e (incrível) mais baratos do que antes. 

Para quem não se lembra, o carro que estampa este post é uma “Elba”. SUCESSO absoluto nos anos 90, considerado um carrão. Até foi por conta de uma dessas que o presidente Collor sofreu impeachment.

Não passava de uma carroça (muito feia, inclusive, até para os padrões da época). Mas era o que tínhamos por aqui.

E agora o governo quer incentivar a “Indústria Nacional” aumentando o imposto do carro importado. Aliás, que indústria nacional? Aos nacionalistas de plantão, o Brasil não tem nenhuma montadora. São todas de capital estrangeiro. Enquanto isso, a China tem pelo menos cinco e a Índia duas.

Aliás, cabe lembrar também que nosso setor automotivo é dominado por apenas 3 empresas. VW, GM e FIAT. As outras ainda têm pouco mercado. E o que nos mantém reféns dessas marcas e de carros caros não são os impostos do governo, por incrível que pareça.

Quanto custa no Brasil um carrão com motor V8 6.2 litros de 16 válvulas com mais de 400 cavalos, escapamento duplo, rodas de alumínio aro 20, injeção eletrônica e freios Brembo de fórmula 1? Na sua mão por apenas R$ 185.000 sem aumento do IPI. Clique aqui e peça o seu.


Justo, certo? Um carrão desses, com tudo isso. 

Mas e se nos Estados Unidos o mesmo carro custasse apenas 22.805 dólares? Clique aqui e tire suas dúvidas.

Certamente o leitor mais atento dirá prontamente: são os impostos do Brasil!

Mas eu digo: não são os impostos! Se fossem, como seria possível que o Honda City, produzido aqui no Brasil, em Sumaré, é exportado e vendido no México por R$ 25.800 (reais, não dólares) se pagamos aqui pelo mesmo carro R$ 56.000?

E, além disso, em virtude no Acordo de Complementação Econômica n° 53, o México não nos cobra Impostos de Importação. Ou seja, o único custo adicional que a Honda tem por vender o carro lá é o frete. E, se o problema fossem impostos, a diferença de preço não deveria ser tão grande. E, aos mais informados, o item na NCM que corresponde a este carro não consta em nenhuma lista de exceção às tarifas  de importação acordadas.

Recentemente, estive no Panamá (país que é menor que a zona leste da cidade de São Paulo em população), e uma BMW que aqui custa R$ 150.000 lá custa US$ 27.500. E o Panamá nem tem indústria “nacional” para proteger…

Ou seja, os carros no Brasil não são caros só pelos impostos, mas pelo domínio de grupos estrangeiros no nosso mercado. Oligopólio não é bom em lugar nenhum. Esses grupos têm um poder enorme manifesto através do lobby de suas associações junto ao governo, que permitem que influenciem as decisões em seu favor e consigam controlar os preços nos prejudicando.

Aliás, em 2009, quando o nosso mercado não estava recebendo carros de outros países, sobretudo da China, por preços competitivos, o governo reduziu o IPI para incentivar a indústria. E deu certo! Por que agora aumentar o mesmo imposto para os importados? É voltar para o passado.

Felizmente, os ministros do STF, não por entenderem de economia, mas porque, além de tudo, a decisão ainda era contra a constituição e contra os acordos internacionais dos quais o Brasil é signatário, revogaram a decisão por voto unânime.

Voltamos para o presente.

Mas o nosso presente ainda é passado, um mercado dominado por um governo que atende a interesses privados e por um oligopólio da indústria estrangeira que se diz nacional. O governo protegendo a ineficiência dessas empresas impedindo a entrada de concorrentes. E nós aqui ainda andando em carroças caras, mas não tão carroças quanto a Elba. Presente nem tão passado mas longe do futuro. 

É o Brasil.


Categorias: Brasil, Economia, Polêmica, Política e Política Externa


1 comments
Giovanni Okado
Giovanni Okado

Alcir,Belíssimo post! Temos sempre a mania de achar que os impostos explicam tudo. E não é. Assim como, nestes tempos, li um artigo do Marcos Coimbra que descontrói a ideia de que o Brasil padece de um único male: a corrupção. Não me lembro se foi o presidente de alguma indústria automobilística ou de algua federação que disse, ao ser perguntado sobre o aumento do IPI: "nós colocamos o preço que queremos, porque as pessoas compram." Uma declaração como essa é quase um crime leja-majestade contra o consumidor comum, aquele cara que acorda às 5h, demora 2h no transporte público para chegar ao trabalho e outras 2h para voltar para casa, às 23h, e sonha em comprar um carro. Isso para não falar os custos de manutenção que virão depois.É preciso critérios e transparência nesta questão.Abraços.