Até quando?

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Haiti. MINUSTAH. Operação de paz. Estes três termos – intrinsecamente relacionados – têm gerado profundos debates internacionais há anos (quase uma década!). O Haiti, país assolado por dificuldades extremas e dos mais diversos tipos, recebeu em 2004 a “Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti” (MINUSTAH), operação de paz em que o protagonismo brasileiro é notável, com mais de 13 mil soldados e 1 bilhão de reais investidos (posts sobre o assunto aqui e aqui).

Ok, mas a pergunta que não quer calar é: até quando? Uma operação de paz, dentro de uma lógica de ação humanitária, deve pressupor um planejamento de curto, médio e longo prazo que respeite o(s) momento(s) de urgência social e humanitária (no plural, já que o desastroso terremoto de janeiro de 2010 fez a escala de ação retroceder “abaixo do zero”, segundo o então representando da ONU no Haiti – veja post no blog sobre o tema aqui), mas que também visem, pouco a pouco, à promoção do desenvolvimento local.

Neste sentido é que a MINUSTAH passa a ser questionada pelo próprio povo haitiano. Alguns escândalos por parte de abusos dos “capacetes azuis”, tal como são chamados os soldados da ONU, também têm contribuído para essa visão negativa. A partir do momento em que a população não se sente participante do processo de construção comunitária, muitas dificuldades advêm e tornam a fase de “transição” mais longa do que deveria ser.

Vista como “força de ocupação”, a MINUSTAH não cativa hoje os haitianos como em 2004. Após todos esses anos, esperava-se poder visualizar a construção de uma estrutura nacional que proporcionasse segurança social à população, o que não ocorre. Segundo declarações da ONU e do próprio governo brasileiro, a operação de paz só pode ser encerrada quando houver uma alternativa a ela, de forma que a saída da MINUSTAH não venha a gerar o caos.

O atual presidente haitiano, Michel Martelly, eleito este ano com a promessa de retirar as forças da ONU do país, discursou semana passada na 66ª Assembleia Geral das Nações Unidas pedindo, contudo, a permanência da MINUSTAH. Segundo ele, a operação ainda precisa ajudar o governo em questões como educação, geração de empregos, meio ambiente e garantia de um Estado de direito.

Enquanto este ciclo vicioso (e retórico) se estende, a esperada “alternativa sustentável à MINUSTAH para o Haiti” parece ser construída (?) a passos demasiado lentos. Sem forte apoio da população e ainda com um caráter excessivamente assistencialista, a MINUSTAH segue em suas atividades no país. Não se pode negar, é claro, a importância de uma operação de paz para a ingerência humanitária em situações de crise e em face da necessidade de estabilização política, mas podemos questionar até quando esta operação específica no Haiti não será acompanhada de um necessário (e desafiador!) desenvolvimento sustentável nacional…

[UPDATE: Será que até março de 2012? “Brasil vai começar a retirar tropas do Haiti em março, diz Amorim”, 29/09/2011]


Categorias: Américas, Assistência Humanitária, Direitos Humanos, Organizações Internacionais


3 comments
Mário Machado
Mário Machado

Acho que simplesmente sair do Haiti não é bom para as ambições maiores do Brasil. Ou seja, é uma manobra tática que não serve a estratégia.O problema de uma missão como a MINUSTAH é que falta um objetivo político claro, e como já advertia Sun Tzu não se tira os homens do quartel sem isso. Mas, por que então não é interessante retirar? Por que seria como recuar da liderança da missão, o que não é o que se espera de um membro do CS que deve estar apto a garantir a ordem internacional.Isso se junta ao que sempre digo, ninguém quer dizer ao povo que "protagonismo" internacional pede cedo ou tarde seu preço em sangue. Pouco me ative aos problemas humanitários do Haiti, mas juro que não sou tão realpolitik assim.Abs,

Bianca Fadel
Bianca Fadel

De fato, Jéssica! Quem acaba sofrendo, como sempre, é a população civil que se vê em situação crítica e, infelizmente, sem perspectivas de melhora no curto prazo.Obrigada por seu comentário! É sempre muito bom agregar opiniões e novas informações aos posts! =)Abraços!PS: Então, meu mestrado é em Relações Internacionais, com especialização em ação humanitária! Se se interessar pelo tema, me envie um e-mail que conversamos melhor: [email protected] ;)

Jéssica
Jéssica

EEiiiOutro dia um militar que estava servindo no Haiti nos deu uma palestra e gerou essa mesma discussão!O fato é que o país não tem quase nenhuma( ou nenhuma) estrutura para andar "sozinho", os acampamentos (aqueles que abrigam as pessoas do terremoto)ainda estão lá, há fome, miséria,e não há recursos suficientes para que essa situação se reverta e tbm não tem um governo que se comprometa em revertê-la. Além disso, sabemos que os soldados que vão para essa missões sao "bem recompensados" , daí essa situação é digamos vantajosa para eles.Enquanto isso, quem sofre são os civis, que vivem em condições sub-humanas com poucas perspectivas de melhora.Bem legal o postPS: Bianca, desculpa a pergunta, mas tu estáis fazendo mestrado em que?( é que no outro post foi falado que é na área humanitária, mas não especificaram!hahah)Abraços!