Até minuto de silêncio

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Nelson Rodrigues, entre suas célebres frases e seu amor incondicional ao futebol, costumava brincar com um certo costume nacional afirmando que “brasileiro vaia até minuto de silêncio”. E o brasileiro vaia mesmo, sem pudor. Pelo menos suas autoridades, todas odiadas, vistas como culpadas  por todas as mazelas, verdadeiras personificações dos motivos que nos levam a não sermos tão desenvolvidos como gostaríamos. 

Mas desde que Lula chegou ao poder, quem ocupa o cargo máximo parece desmerecer a sabedoria de Nelson Rodrigues. Como o ex-presidente em 2007, em um Maracanã lotado, Dilma se arriscou a dizer algumas palavras na abertura da Copa das Confederações sábado passado. O resultado: uma sonora vaia. Joseph Blatter, presidente da FIFA, na tentativa de salvar a presidente e desconhecendo a própria impopularidade da entidade no país, ainda tentou contornar uma situação deselegante de forma bastante cordial, questionando as arquibancadas inquietas com o jargão criado pela Federação para definir tudo que é louvável nas atitudes esportivas: “amigos, onde está o Fair Play?”

As vaias às autoridades foram apenas a última das marcas de ambiguidade deixadas no inicio do evento teste para a Copa do Mundo. Afinal, até onde essas vaias representariam algo para o momento político ou seriam apenas a boa e velha insatisfação nacional com tudo? Difícil imaginar um cenário diferente, mesmo trocando os personagens da abertura. O próprio outro presidenciável três anos atrás, José Serra, se transformou em uma espécie de exemplo de impopularidade, perdendo até as eleições municipais, com altos índices de rejeição.

Mesmo que as vaias não sejam conclusivas quanto a popularidade de Dilma e o momento político brasileiro, ela mostra o país da Copa das Confederações como contrastante, de difícil projeção futura.  Muito superior a África do Sul, o Brasil passou facilmente pelo teste de prazos e organização dos jogos. Estádios prontos, eventos impecáveis. Já fora das arenas a infraestrutura ainda peca, ameaça falhar em uma competição muito menos inflada que a Copa do Mundo, com apenas 8 seleções e nada da massa de turistas que deve chegar ao país.

Pernambuco e Rio de Janeiro já sofreram com a desorganização. Na capital nordestina, a falta de transporte de qualidade e de infraestrutura nos arredores do estádio ficaram evidentes. No Rio, problemas com grandes filas e um confronto violento entre manifestantes e policiais marcaram as horas anteriores ao jogo. Aliás, os protestos em frente aos estádios apenas confirmaram o que se tem visto nos últimos dias.

Além do evento esportivo pré-Copa, o Brasil recebeu certa visibilidade internacional na última semana devido aos protestos contra a falta de qualidade e as altas taxas do transporte público. Como cereja do bolo, a truculência policial contra os manifestantes e a violência com jornalistas selaram uma imagem negativa de instabilidade. Mais do que isso, quebraram a visão de país em perfeita comunhão com o desenvolvimento.

Aliás, essa era a imagem que o governo gostaria de passar ao mundo, seguindo o exemplo das Olimpíadas chinesas. No entanto, aqui tanto o povo como a imprensa não ajudam tanto em esconder algumas evidentes lacunas de organização. Se em outros países era a imprensa internacional que precisava denunciar erros, no Brasil a imprensa um tanto quanto combativa e crítica ao governo é quem primeiro denuncia. Em outro ponto, a população não se convence nem da qualidade, nem dos futuros benefícios prometidos a quem sediasse a Copa do Mundo. O evento é incapaz de receber o apoio político do povo.

Todos esses fatos nas vésperas da Copa das Confederações e na sua abertura deixam claro que certamente o país não conseguirá vender ao mundo a imagem de Brasil-espetáculo, desejo tão grande do governo como propaganda internacional, que talvez seja a maior utilidade de uma Copa do Mundo. Ao contrário, deixamos até aqui imagens de suntuosos estádios, disciplina em cumprir exigências de prazos e da FIFA, misturadas à vergonha de não termos resolvidos problemas básicos do passado.

Mas tudo isso já era esperado. Quatro anos e uma Copa não resolveriam o que até aqui não foi solucionado. A única possibilidade de uma imagem de país perfeito seria a venda de uma ilusão. Mas a ilusão, se não se esvaiu com os protestos e a desorganização do pré-jogo, não se sustentou às vaias. Por que, como sabem, o Brasil tem problemas sérios atualmente. E o brasileiro nem desses problemas precisaria, ele vaia até minuto de silêncio.


Categorias: Brasil, Política e Política Externa


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  1. […] Apesar de muito semelhante à situação vivida há uma semana na abertura da Copa do Mundo, o fato relatado em post do blog de um ano atrás se refere à abertura da Copa das Confederações, realizada também no Brasil, quando Dilma […]