Assange no Equador?

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Para um presidente acusado de propor uma nova legislação de comunicação apelidada de “lei da mordaça” é, para dizer o mínimo, curioso o fato de aventar a possibilidade de oferecer abrigo a um ativista que diz ter a missão de buscar e divulgar informações que promoverão revoluções e mudanças no mundo. Torna-se ainda mais controversa na medida em que o ativista em questão é Julian Assange, especialmente após a justiça britânica aprovar seu processo de extradição para a Suécia. A decisão foi baseada na requisição da justiça sueca de julgar Assange por acusações de crimes sexuais cometidos no país. Neste contexto, surge o Equador na história.

Após a sinalização da possibilidade de oferecer asilo ao ativista, lá foi ele se abrigar na embaixada equatoriana em Londres. O que está em jogo é a defesa dos direitos humanos, segundo a chancelaria do Equador. Há a intenção de possibilitar a continuidade do trabalho da Wikileaks. Contudo, nem mesmo Rafael Correa confirma a aprovação do pedido. A decisão será tomada após reuniões com representantes dos governos envolvidos no imbróglio: Reino Unido, Suécia e Estados Unidos. Caso a Suécia garanta que não vai entregá-lo para os Estados Unidos, onde poderia enfrentar a pena de morte por espionagem, a extradição seria realizada e a questão encerrada. Até a decisão final, o fundador da Wikileaks ficará abrigado na embaixada do Equador.

Correa afirmou em entrevista à Assange que considera seu trabalho importante, tendo inclusive utilizado de algumas das informações liberadas pela Wikileaks. Mas, imaginem o ativista vivendo no Equador. O que aconteceria caso surgisse uma informação possivelmente negativa sobre um plano de Correa ou mesmo integrantes de seu governo? Será que o presidente também não poderia acusá-lo de irresponsabilidade no caso de divulgação? À primeira vista, toda esta cooperação poderia desmoronar em pouco tempo. Se o caso do italiano Cesare Battisti já causou tanto desgaste para a diplomacia brasileira, lidar com uma figura tão controversa tende a ser muito mais delicado. Em declarações durante esta semana, o presidente equatoriano não estabeleceu prazo para uma decisão, afirmando que levará o tempo que for necessário para chegar a uma conclusão.

Sobram dois cenários possíveis. No primeiro, o governo equatoriano faz jus a sua promessa, permitindo o trabalho livre de Assange, com o risco de abrir um precedente para veículos da mídia exigirem a aplicação de princípios similares aos veículos do país. Cabe ressaltar ainda que é possível, e mesmo provável, que líderes da oposição e diversos grupos anti-Correa utilizem o líder da Wikileaks como interlocutor com o objetivo de divulgar informações sensíveis ao governo atual. No segundo cenário, Assange abriria mão de levar a público questões que possam afetar a governabilidade do seu presidente protetor, contrariando sua missão pública de informar à sociedade e promover revoluções. A primeira parece mais provável, considerando o histórico recente.

O Equador conseguiu colocar-se em uma situação pouco confortável. O que fazer? Parece pouco provável que a Suécia ofereça as garantias que deseja Assange. Assim, restará ao governo equatoriano cumprir sua palavra e analisar sob a ótica dos Direitos Humanos o caso, culminando provavelmente na aprovação do asilo político. Neste caso, o país sofrerá com as conseqüências por uma questão que talvez nem devesse ter entrado em sua pauta de discussão. Enquanto outros apontam o fato de Correa ter chamado Assange de “meu querido” durante a entrevista como indício de algo, o Equador tem outros motivos para se preocupar. Não precisava, mas agora tem. 


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