As sociedades, as ideias e as relações internacionais

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Os acontecimentos no mundo árabe vêm ocupando grande espaço no noticiário e no nosso blog. Nunca é demais lembrar o significado histórico dessa onda de manifestações que tem atravessado países onde o governante se confunde com o Estado, onde a democracia não passa de um rótulo enganoso. O povo despertou uma aurora, trazendo o futuro nas mãos e a esperança nos olhos. Tudo isso é de grande interesse para nós, internacionalistas e leitores, que, em grande medida, estamos nos perguntando: qual a influência das sociedades nas relações internacionais?

Ora, as sociedades se comunicam muito além do comércio, da diplomacia ou das viagens. Trens, navios e aviões cada vez mais tem se rendido diante do poder das ideias – deve-se destacar também o papel das mídias sociais. Para alguns, as ideias movem o mundo. Pode até soar exagerado, mas um determinado sistema de crenças sempre instrumentaliza o modo do agir humanos. Um olhar para o passado recorda-nos que os sumérios acreditavam que os deuses criaram os humanos para que os servissem e os venerassem. Cada cidade suméria era guardada por um deus específico e o que acontecia entre elas era resultado do que acontecia nos céus, entre os deuses.

Na Grécia antiga, os estóicos acreditavam num mundo contemplativo, que, no máximo, poderia ser conhecido, mas não mudado, uma vez que a ordem do cosmo já era bela por si mesma. O humanismo renascentista, posteriormente casado com a razão iluminista, trouxe os humanos para o centro do mundo, tornando-os protagonistas de seu próprio destino e libertos das forças divinas. Pelos mananciais da história, o jorro das ideias levantou sonhos, impérios e países, serviu aos príncipes e aos súditos, ao domínio e à liberdade. Não é diferente agora!

Do ataúde do tempo, as vozes libertárias ganham vida e se espalham. Não foram os governantes que, como deuses, construíram as nações árabes, tampouco as potências estrangeiras, e sim as sociedades, com seus mitos, fracassos e aspirações. O Egito foi uma dádiva do Nilo, mas o rio do século XX e XXI é negro. E faz a riqueza. Só que a riqueza não faz a civilização, senão uma pequena parcela dela, a qual faz a política. A política de poucos, a ruína de muitos. A sensação compartilhada das mazelas sociais conduz a luta; ficam os exemplos e seguem as batalhas.

Na evolução humana, deixamos para trás o universo contemplativo ou ditado pelos deuses. Deixamos também uma beleza passível apenas de ser descoberta. A beleza está no que se faz, no que se constrói, para bem ou para mal. Quer queira, quer não, uma hora as sociedades se levantam e as ideias se difundem. Não importa o regime, não importa a liderança, não importa quem apoie. Assim foi durante a queda do Antigo Regime, nas guerras independentistas ou na democratização do leste europeu. Diz um provérbio que “começar já é a metade de toda ação”; já começou na Tunísia e no Egito.


Categorias: Oriente Médio e Mundo Islâmico, Política e Política Externa


2 comments
Giovanni Okado
Giovanni Okado

Caro Duque de Bragança, agradeço pelo elogio e, mais do que isso, obrigado pelos seus comentários recentes sempre muito pertinentes no blog.Ainda que este não seja um espaço muito próprio para fazer o convite, gostaria de deixar em aberto a possibilidade para uma futura postagem do senhor. Creio que será uma grande contribuição.Um abraço