As misturas

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O governo e a imprensa são duas variáveis, que embora possa não parecer, são muito dependentes. Ora, funcionam como água e óleo, e não se misturam nem que haja qualquer intervenção divina. Ora, agem como água e açúcar, que na medida certa se dissolvem perfeitamente. Mas que medidas seriam essas? Bom, de um tipo bem peculiar, que pouco pode ser contabilizado ou mensurado, todavia, todos sabem que estão lá e que são muito importantes: os interesses.

Não é preciso nenhum curso de química avançada para entender essa fórmula. Todo veículo de comunicação em massa constitui um grupo de interesse na sociedade, e, portanto, tende a expressar (e buscar) seus interesses de forma escancarada ou de forma mais branda, em outras palavras, bem nas entrelinhas. Mas a questão é que quando há alguns interesses, visa-se legitimar ou se opor aos governos vigentes (ou a alguns segmentos desse).

O grande problema é quando os ingredientes imprensa e governo, ao serem colocados no mesmo recipiente implicam em uma reação contrária à esperada. Aí emergem excedentes difíceis de serem controlados, pesando mais para um lado ou outro, já que estamos lidando com essas delicadas medidas chamadas interesses (e que para alguns podem ser entendidas em termos de poder).

E a reação pode ocorrer de diversas maneiras, gerando sempre excedentes para um ou outro lado. As variações são inúmeras, e se dão entre os escopos de inabilidade do governo em lidar com possíveis ataques da imprensa, de tentativas de controle estatal desse veículo e de publicações de notícias com vias de desmoralizar governantes.

Bom, o caso é que alguns países da América do Sul têm experimentado os ônus de reações químicas, digo, políticas, infortuitas. Enquanto a Venezuela vive o caso de grande excedente para o lado do governo – visando controlar cada segmento da mídia – a Argentina parece não saber lidar bem com as críticas ao atual governo.

No novo episódio do interessante caso argentino, Kirchner afirma que a publicação de jornais tornou-se questão de “interesse nacional”, e, portanto, é necessário que a principal empresa produtora nacional de papel jornal, Papel Prensa, socialize o acesso à informação barateando os custos dos demais jornais e não somente de “O Clarín” e “La Nación” (famigerados opositores do governo Kirchner). De maneira interessante, emergiram também acusações de colaboração desses dois jornais com governos militares anteriores.

Muita reflexão é necessária acerca desse caso. Seria realmente uma questão de socialização da informação? Ou seria apenas mais uma consquência de uma mistura governo-imprensa na qual as medidas não batem? Resta esperar para analisar melhor os excedentes dessa mistura…


Categorias: Américas


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