As chaves para um futuro?

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Olha ele aí de novo. Vamos falar de Hugo Chávez até 2019, pelo menos. Se vai ser bem ou mal, depende do presidente venezuelano (apesar de, pessoalmente, achar que nenhum governante, por mais santo que fosse, devesse passar tanto tempo no poder em qualquer lugar). Mas, sobre as eleições desse final de semana, vencidas pelo atual presidente, acredito que o resultado geral tenha sido positivo, por diversas razões, sendo que pela primeira vez temos um pleito sem acusações graves de fraudes. 

A Venezuela empregou um sistema “turbinado” de votação com urnas eletrônicas touchscreen e com biometria somada à impressão dos votos, de fazer inveja ao brasileiro. Nada de pancadaria ou revoltas pós-eleições, o que sempre é um bom sinal. Além disso, a vitória confortável de Chávez (54% dos votos) não impediu que houvesse uma votação expressiva no candidato da oposição, Henrique Capriles (com 44%), mostrando que Chávez não é tão unânime e que a oposição pode ter aprendido sua lição após o boicote de 2005. Não vamos entrar no mérito de dizer se um dos lados está certo ou não (mesmo por que seria uma discussão sem fim), mas é importante que haja uma oposição com um mínimo de força, em qualquer sistema democrático, e isso faltava na Venezuela há algum tempo. 

A grande questão agora é ver o que rola nos próximos anos. Chávez anuncia que vai aprofundar seu projeto bolivariano, o que pode significar de aprofundar as relações com os aliados da América Latina a nacionalizar parte de setores da economia como bancos ou saúde. Por um lado, por mais que haja questionamentos sobre o modo como suas reformas são aplicadas, se estão surtindo algum efeito positivo na população venezuelana, quanto melhor. 

O problema é que o modelo tem prazo de validade. Chávez depende demais da produção de petróleo para ter dinheiro em caixa, e bastou uma ondulação no passado para que houvesse problemas de abastecimento interno como alimentos e energia (ironicamente). Esse modelo depende de presença estatal ostensiva, e vai ter que enfrentar o teste de fogo das variações de preço internacionais nesse contexto de crise, e a popularidade de Chávez deve ser posta à prova de modo mais efetivo nesse mandato (considerando que poderia ter acontecido já nesse último, mas sua luta contra o câncer, louvável, certamente teve um efeito positivo para sua imagem). 

O aumento da oposição nas eleições de ontem mostram que há uma dissidência. Se acontecer essa insatisfação, ou mesmo uma crise mais grave, seja econômica ou de abastecimento, qual vai ser a reação? E tudo isso interessa demais ao Brasil, seja pela estabilidade regional, seja pela presença da Venezuela no Mercosul agora. A certeza é que vamos ter sobre o que falar até 2019.


Categorias: Américas, Política e Política Externa


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