As boas armas

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Demorou, mas com um ano de atraso, Malala Yusafzai, junto do ativista Kailash Satyarthi, ganhou o prêmio Nobel da Paz. A menina paquistanesa que levou um tiro na cabeça por defender a educação para crianças, especialmente meninas, foi agraciada junto ao indiano por seu trabalho contra o trabalho infantil há mais de 20 anos. Já havíamos comentado como essa premiação tem muitas vezes um caráter mais político (como no ano passado, em que Malala era cotada como favorita mas o prêmio foi para a organização de regulação de armas químicas pela atuação com a ONU na crise do momento, na Síria). E quando pensamos que a honraria já foi concedida recentemente a Obama e à União Europeia, cabe aquela reflexão sobre o que anda acontecendo no Oriente Médio – as premiações e os envolvidos podem não parecer mas tem muito em comum.

Malala e Styarthi são defensores de direitos fundamentais. Direitos que tanto Estados agressores como a Síria quanto invasores como os EUA e as forças insurgentes costumam desrespeitar. O caso do ISIS/Estado Islâmico é o mais emblemático – estabelecendo um “califado” nas regiões entre Iraque e Síria, persegue causa a fuga de curdos, cristãos e outras minorias. O desrespeito ao gênero é ainda mais gritante, com casos de casamentos forçados e outros ultrajes.

E chegamos ao segundo ponto – aqueles que ganharam o prêmio antes, como Obama e a UE, são tanto causa do problema como aprofundadores do mesmo. Ninguém pode negar que a ação desastrada dos EUA na última década forneceu o espaço inédito para que esses grupos se desenvolvessem na terra sem lei pós-Saddam Hussein. E hoje, com campanhas de ataques de drones, bombardeios cirúrgicos e intervenções “limpas” que deixam o trabalho sujo nas mãos ensanguentadas dos locais, reforçam a tese de que a preocupação não é resolver o problema, mas mostrar que estão fazendo algo. Novamente, as intervenções militares (pra não dizer invasões) a Iraque e Afeganistão comprovaram que apenas o componente militar não é suficiente para resolver questões de governança e estabilidade. Tampouco com a entrada de empreiteiras texanas.

É necessário educação, condições de moradia, oportunidades somadas à ajuda humanitária. E isso os países ocidentais não se sentem dispostos a fazer. Nunca estiveram – vejam o caso da crise de ebola na África, em que foi necessária a explosão da epidemia e infecção de pessoas na Europa e nos EUA para que ajuda mais maciça fosse enviada. O discurso soa eleitoreiro (especialmente no mês atual para nós), mas em sua simplicidade, como ao informar que a melhor arma contra o terrorismo é a educação, Malala e Satyarthi demonstram ser campeões entre os gigantes da política internacional e que compreendem com muito mais profundidade os problemas tão simples mas de solução tão complexa.


Categorias: Conflitos, Direitos Humanos, Estados Unidos, Europa, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Paz


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  1. […] a Proibição de Armas Químicas (Opaq), em 2014 o comitê organizador, com um pouco de atraso, agraciou Malala Yusafzai, juntamente com o ativista indiano Kailash Satyarthi. Malala, com o seu grande exemplo, apesar de seus apenas 17 anos, se tornou a pessoa mais jovem a […]