As Armas e os Barões Assinalados na América do Sul

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[Pessoal, este post é do Giovanni Okado. Era para ser postado ontem, mas tanto eu quanto ele estávamos sem internet. Como ele ainda está sem, posto para ele]

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Há cerca de cinco séculos, a fabulosa obra Os Lusíadas, de Camões, era marcada pelas armas e os barões assinalados na ocidental praia lusitana. Hoje, pode-se trocar apenas o lugar do verso; as armas e os barões seguem assinalados. Estamos falando da América do Sul e da mais nova moda no continente: a corrida armamentista. Entre os anos de 2003 e 2008, estima-se que os orçamentos militares dos países sul-americanos aumentaram 91%. Duas considerações sobre esse dado: a) não é uma informação completamente atípica, tendo em vista o estado decadente de muitos exércitos do continente; b) o processo não se deu de maneira equânime nos países da região.

O termo “corrida armamentista” diz respeito à aquisição de armas. Quem o faz? Os barões, ou melhor, os presidentes e os militares e ministros mais próximos a eles. É do interesse da sociedade? Certamente não. Num continente onde os índices de pobreza e desigualdades sociais são alarmantes e prevalece a lúgubre herança ditatorial, as armas não parecem resolver os problemas. Ou resolvem? Há um enorme hiato entre a percepção da importância da Defesa por parte da sociedade e os desdobramentos que o assunto traz consigo. Assim como também há interesses ocultos nos esforços empreendidos nessa área.

Afinal de contas, defender o que e se defender de quem? A Venezuela, é claro, se defende do império de Satã (dos Estados Unidos). E defende as suas reservas de petróleo. Hugo Chávez declarou que o país tem o legítimo direito à Defesa e, por isso, selou parceria com a Rússia no último domingo. Foi acordado um empréstimo de US$ 2,2 bilhões destinado à compra de 92 tanques e modernos sistemas de mísseis antiaéreos. Aliás, há tempos que ambos os países sustentam acordos militares, os quais incluíram a compra de aviões, fuzis e helicópteros.

O Brasil também entrou na dança. Durante a visita do presidente da França, Nicolas Sarkozy, Lula acordou a compra de armamentos franceses no valor inicial de 8,7 bilhões de euro. Pelo acordo, o Brasil adquirirá 36 aviões de combate Rafale, 50 helicópteros e construirá – juntamente com a França – quatro submarinos convencionais e um de propulsão nuclear. Tal parceira acabou descontentando os Estados Unidos, que também tem uma proposta para o governo brasileiro, e o Ministro da Defesa, Nelson Jobim, acabou admitindo que nada está completamente definido quanto à aquisição de armamentos.

E os demais países? Bem, o Chile é o país que mantém o maior orçamento militar (3,7% do PIB em 2006) e investe pesadamente na modernização de suas Forças Armadas, embora não esteja em conflito. Por outro lado, Colômbia, que luta internamente contra o narcotráfico, é forçada a investir em material bélico. Já a Argentina não adquire armamentos desde 1994. E o Uruguai reclama. Tabaré Vázquez refuta veementemente esta busca por armas.

E os interesses implícitos nas iniciativas de aquisição de armamentos? Ora, a Venezuela nada mais quer do que a implementação do projeto bolivariano de Chávez na América do Sul. O Brasil, além de proteger o pré-sal, visa a um assento permanente no Conselho de Segurança e, para muitos analistas, firmar-se como uma potência regional. O Chile, por sua vez, aproveita as suas reservas de cobre.

É evidente que todos exaltam a necessidade da Defesa como forma de cuidar do próprio território e manter a soberania. Mas é inegável que a Defesa não é um fim em si mesmo. É também uma possibilidade de projeção econômica e de aspirações políticas. Mais do que isso, é um jogo entre barões do século XXI e uma sociedade do século XV, excluída dos versos heróicos e de palavras orgulhosas, que narram a epopéia de poucos.


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