As Aparências Enganam

Por

O conceito de globalização já foi alvo de muita polêmica no campo das ciências sociais sendo grandemente difundido e discutido. De modo geral é amparado por um entendimento do mundo como mais interdependente e de fluxos mais intensos, tanto no campo político-econômico quanto no campo cultural. A maior intensidade dos fluxos engendra diversos riscos, dentre eles o de imposição da cultura liberal ocidental sobre diversos países sempre que sempre se apresenta como central nas árduas discussões sobre o fenômeno.


Enquanto de um lado há busca pela compreensão do fenômeno que envolve forças de âmbito societal, de outro, no plano dos indivíduos e dos grupos individuais, temos o esforço pelo entendimento do que são os direitos humanos e qual a extensão deles dentro das sociedades. Destarte essa relação intrínseca entre direitos humanos e globalização é inegável. Isso porque tais direitos têm também no seu cerne o impedimento desse conflito cultural pela providência da liberdade de expressão e de religiosidade de todo indivíduo, como esforço contrário a qualquer limitação de manifestação religiosa e cultural.

Assim, esses dois movimentos contrários acompanharam o entendimento de um mundo multicultural. Aos poucos foi se sedimentando uma nova idéia de cultura e de políticas que lidam com as questões culturais dentro de cada Estado. Mas infelizmente até hoje a maioria dos países tem muita dificuldade em lidar com questões multiculturais. E na crença de estarem garantindo mais direitos acabam por limitar outros.

O recente caso belga de aprovação de projeto de lei proibindo o uso da Burka (ou niqat – artigo de grande importância cultural para muçulmanos) nas ruas e edifícios públicos do país comprova essas afirmações. Deputados belgas acreditam estar defendendo os direitos das mulheres, mas inconscientemente estão ferindo os direitos humanos. Buscar defender a liberdade das mulheres contra imposições culturais é válido, mas impor-se contra determinada cultura ou religião como movimento contrário, anula as primeiras motivações.

Os artigos 18 e 22 da Declaração Universal dos Direitos Humanos reforçam o direito de liberdade religiosa e cultural bem como a de expressão e convicção dos indivíduos no referente a suas crenças, conquanto que não firam as liberdades de outros. No sentido oposto, o principal argumento dos parlamentares é que a vestimenta é uma forma de repressão contra a mulher já que esconde todo o corpo feminino. A grande questão é que não se pode utilizar de juízos de valor em ao se tratar de religiosidade ou cultura, deve-se apenas encarar como uma perspectiva diferenciada, uma vez que o olhar ocidentalizado nos impede de compreender profundamente os meandros dessa manifestação religiosa. Não caberia ao governo o julgamento de certo ou errado tal uso e sim àquelas que a vestem. Portanto, enquanto o uso da burka fizer parte do credo das mulheres, esse projeto de lei denotará incapacidade do Estado belga de lidar efetivamente com as questões multiculturais sem ferir os direitos humanos dos cidadãos.

O que agrega mais interesse ao caso é que, ironicamente, a Bélgica sempre teve que lidar com tais questões por ser formada por dois grupos lingüísticos diferenciados (os flamegos que falam holandês e os valões que falam o francês) e ainda conter uma considerável comunidade alemã. Toda essa aparência de Bélgica multicultural e bem prudente ao lidar com questões culturais devido às suas raízes e heranças históricas parece ser desconstruída. Parece que na política internacional, como nas relações interpessoais, as dadas aparências e conceitos pré-formados enganam.


Categorias: Assistência Humanitária, Direitos Humanos, Europa, Oriente Médio e Mundo Islâmico


0 comments