As Antígonas contemporâneas e o desafio cubano

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Na Grécia antiga, há mais de 400 anos antes de Cristo, Sófocles escreveu uma peça de distinta exuberância, Antígona, que narra a luta de uma mulher contra um governo tirano, repressor da liberdade de seus cidadãos. A heroína e o exemplo atravessaram dois milênios e hoje pululam no ideário dos dissidentes políticos cubanos, contagiando os ânimos no combate a um regime socialista caduco. Por certo, uma semelhança não é mera coincidência, como demonstra o artigo da dissidente cubana e editora do blog “Generación Y” (aqui), Yoani Sanchéz, o qual conclama a exaltação dos verdadeiros protagonistas da luta cubana, como Guillermo Fariñas: “me pergunto como foi possível que nos tenham cortado todos os caminhos da ação cívica, até nos deixarem apenas com nossos corpos para ser usados como estandarte, cartaz, escudo. Quando um país se torna palco de tais greves de fome, é hora de se perguntar que outras vias restam aos inconformados e quem teriam sido os responsáveis por inibir os mecanismos de expressão dos cidadãos, e por quê.”


A esses protagonistas é que os sete prisioneiros recém libertados, bem como os outros 56 que experimentarão de idêntico destino (segundo o anúncio do governo cubano), devem imensa gratidão. Em Madri, dois dos libertos assumiram o discurso de continuar a luta pela libertação de todos os presos políticos em Cuba, o que não poderia ser diferente. Léster González afirmou que a mudança é chave para o país, sendo que este merece a democracia. Washington também se antecipou e considerou a medida “positiva”, embora acredite que todos os confinados deveriam estar livres, de acordo com o porta-voz do Departamento de Estado, P. J. Crowley.

Coincidência ou não, fato é que a libertação dos prisioneiros políticos ocorre no momento em que Fidel Castro volta ao cenário cubano. Depois de quatro anos sem aparecer na TV, Castro participa do programa “Mesa Redonda”, mas não para tratar da situação política do país e tampouco dos presos; o assunto debatido foi o Oriente Médio e a Coréia do Norte, com a suposição de um ataque nuclear dos Estados Unidos e Israel ao Irã e seus desdobramentos. Acredita-se que a entrevista tenha sido gravada para a exibição, contudo, o tema dos presos políticos e suas implicações ao regime cubano deveria ser digno da apreciação da maior “Antígona cubana”, ou seja, de Fidel Castro.

Héctor Palacios, um dos líderes da dissidência cubana, em entrevista ao El País, acredita que o governo cubano passa por um momento crítico e tem consciência de que precisa “soltar o lastro”, por razões políticas, econômicas e sociais, para que as forças democráticas triunfem no país. Mais emocionante é a entrevista recém concedida por Guillermo Fariñas também ao El País, que considera a libertação dos presos políticos uma total vitória para Cuba, tanto dos reprimidos como dos repressores, de sorte que ambos tiveram que ceder e caminhar em direção à reconciliação. Pena que talvez Fariñas não possa ver o futuro que ajudou a construir. Pena que talvez os libertos não possam cumprimentá-los pessoalmente. Sua greve de fome de 135 dias lhe custou a saúde e possivelmente a vida.

O socialismo envelheceu, o capitalismo ainda não floresceu. Para onde vai Cuba? Predomina a tirania, enquanto usurpação e abuso de poder, e as violações dos direitos humanos. Todavia, tais temas precisam ser submetidos a um melhor escrutínio, visto que é muito comum depreciar a situação interna cubana sob um olhar narcisista, procurando fazer do mundo um espelho. Na França, por exemplo, está para ser aprovada uma lei que proíbe o uso da burca. O conceito de democracia norte-americano não serviu no Afeganistão, nem no Iraque. É vital que Cuba caminhe para um novo regime, mas deve fazê-lo por matrizes próprias, com o vigor de sua história de lutas contra tiranias, com a força de suas Antígonas.


Categorias: Américas, Assistência Humanitária, Direitos Humanos, Política e Política Externa


4 comments
Mário Machado
Mário Machado

www.coisasinternacionais.com É texto de quarta-feira, deve estar em segundo na lista o título é: "Mun-rá o ser eterno. Ou sobre o Líder cubano".Abs,

Giovanni Okado
Giovanni Okado

Mário, vc poderia passar o link do seu artigo? Com certeza, a comparação com o Mun-rá é interessante.Pois é, Álvaro, "Fidel Revival" em Cuba. Por certo, o fim dos irmãos Castro no poder deve despertar a busca dos EUA por influência na ilha caribenha, todavia, não acredito que a sociedade permanecerá passiva. O povo sempre contempla seus mitos e ícones, sendo a Revolução Cubana um grande marco para o país (e também para toda a América) e Fidel, uma grande Antígona.Abraços.

Álvaro Panazzolo Neto
Álvaro Panazzolo Neto

Interessante analogia Giovanni. O Fidel ainda está vivo? Que coisa. A incerteza é o que predomina quanto ao futuro, quando Fidel/Raul baterem as botas Cuba vai virar o caos, e provavelmente vão cair na sombra dos EUA.

Mário Machado
Mário Machado

O autor se valeu de histórias gregas. Eu usei o Mun-rá. A comparação diz muito sobre mim... rs.. Abraços,