Argentina: o que comemorar?

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Um dia após o colaborador Luís Felipe fazer aniversário, é a vez da Argentina. Hoje se celebra o bicentenário da independência. Há dois séculos, o Vice-Reino do Prata emancipou-se da metrópole espanhola, por meio da Revolução de Maio e da formação da Junta de Governo em Buenos Aires. Desde então, o país tem atravessado um sinuoso caminho, marcado por encontros e desencontros, sucessos e tragédias.

A partir dos anos 1870, a Argentina experimentou um crescimento econômico sem precedentes, comparável inclusive com as mais importantes nações ocidentais da época. Tal crescimento, assentado numa forte base agroexportadora em regime de mercado aberto, permitiu um processo incipiente de modernização do país, bem como alimentou os desígnios de grandeza e progresso na inteligência política argentino por um longo tempo. Todavia, o sucesso converteu-se na maldição. A partir de 1890, a Argentina mergulhou num endividamento externo também sem precedentes.

A correção de rumos do país só viria com a chegada ao poder do general Juan Domingo Perón, no momento em que a ideologia nacional desenvolvimentista contagiava a América Latina. Externamente, Perón sustentava uma postura altiva da Argentina, fazendo frente aos Estados Unidos, com a neutralidade na Segunda Guerra Mundial, e adotando a “Terceira Posição” durante a Guerra Fria, ao não se alinhar com nenhum dos pólos. Internamente, o líder serviu ao contento das massas, perdurando até hoje no imaginário político argentino.

Após Perón, o país girou nos círculos das mudanças políticas e suas respectivas conseqüências econômicas e sociais, entremeados por constantes golpes militares. O destino da Argentina cada vez mais se desprendia dos desígnios do Estado, para se alojar nos líderes e partidos que ocupavam o poder. Cada governo rompia drasticamente com o anterior. Boulitreau Fragoso, embaixador brasileiro em Buenos Aires nos tempos ditatoriais, chegou a afirmar que as previsões políticas na Argentina são similares as previsões do tempo, porque valem por 24h. Desgraça pouca não fosse bobagem, poucos países casaram também crises políticas com crises econômicas como fizeram nossos “hermanos”.

Findado o período ditatorial e soerguida pela democratização, a Argentina se refrescou pelos ventos neoliberais que tocaram a América Latina. Carlos Menem ocupou a presidência entre 1989 e 1999 e acreditava que a globalização produziria resultados simétricos a todos os países. Domingo Cavallo, seu chanceler, afirmou que o país deveria ser “normal”, ou seja, seguir todos os ditames dos centros do capitalismo, abrindo a economia, eliminando o Estado empresário, dentre outras medidas. Tal etapa culminou na drástica crise de 2001. Novos governos, com destaque para a chegada do casal Kirchner ao poder.

Para boa parte da opinião pública, o peronismo volta com força com o casal Kirchner. Só que de peronismo, a atual administração não tem nada. Nem popularidade, nem carisma e tampouco liderança. Segundo o “Clarín”, Maradona, mesmo sendo deveras criticado como treinador de uma das maiores seleções do mundo, é mais popular do que Cristina Kirchner. Não bastasse isso, a presidente só tem conseguido governar por meio de decretos lei, custando-lhe uma sentença da Corte Suprema.

Duzentos anos depois, a pergunta que não quer calar: o que comemorar na Argentina? O mito do progresso do século XIX cedeu o seu lugar para o mito do peronismo, fortemente enraizado na sociedade argentina. Para o filósofo e físico argentino Mario Bunge, “el que no entiende el peronismo no entiende la Argentina”. E quando lhe pediram para definir o peronismo, ele simplesmente disse: “No sé”. Por certo, o peronismo esvaziou um pensamento genuíno na mentalidade dos governantes que o sucederam e devem aprender a conviver com essa sombra do passado. Comemora-se apenas os números da idade, porque nesse sinuoso caminho da história, o futuro não parece ser o destino.


Categorias: Américas, Economia, Política e Política Externa


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