Apostas de risco

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lugansk

Qual o destino da Ucrânia? É claro que boa parte disso vai depender do que rolar no seu vizinho gigante, mas talvez a solução esteja justamente na fonte do problema, que é a divisão da população.

A situação no momento está longe de ser estável (ainda há pessoas morrendo em confrontos isolados), mas é menos conturbada do que há algumas semanas. O parlamento da Crimeia, com a convocação de um referendo para esta fim de semana, quer oficializar sua volta à Rússia, sob as barbas do governo de Kiev. Na semana passada, comentei sobre a questão da autodeterminação, e desse ponto de vista nada mais justo: a população da região tem laços históricos e étnicos com a Rússia, e boa parte de sua própria população deseja a incorporação. Mas nenhum país aceita tão facilmente esse tipo de movimento de secessão, e é claro que a Ucrânia (assim como parte da opinião pública internacional) considera esse movimento ilegítimo – existe um governo (mesmo que provisório), constituição, e a culpa disso tudo seria da Rússia, que incita à desobediência com a presença de suas tropas. Aqui está o segundo problema, justamente a acusação de interferência estrangeira, que acaba valendo para os dois lados.

De certo modo, a “anexação” da Crimeia seria um dos resultados menos piores para a crise (apesar de estar longe de um desfecho satisfatório), já que evitaria a invasão militar russa e teria uma discutível, mas ainda válida, legitimidade. Por mais que a Ucrânia não queira, existe um movimento em curso de “russificação” de sua população, e uma divisão pacífica (como a da Tchecoslováquia) poderia evitar e resolver a crise sem (tanta) interferência estrangeira. Regiões como Lugansk e Donetsk podem seguir o mesmo caminho, e o que vai definir se o destino da Ucrânia vai ser uma fratura territorial ou o banho de sangue da guerra civil será a reação do próprio governo de Kiev. Mas o problema vai além das fronteiras, já que essa busca por incorporação pode não ser interessante a Moscou – basta lembrar da crise da Geórgia em 2008, quando as províncias separatistas da Ossétia do Sul e Abkhazia tiveram apoio russo, mas quando se pensou em incorporação Moscou desconversou. Apesar das populações russas nas regiões, sempre podemos definir o interesse russo na questão estratégica (como o porto de Sebastopol), e quem quiser entrar no trem da alegria russo pode dar com burros n’água.

Isso tudo, é claro, se esses movimentos separatistas prosperarem. A tendência é que o governo não aceite isso e haja guerra civil – ou pior, a invasão russa de fato. Mesmo uma previsão otimista não se isenta do preço em vidas humanas, então devemos esperar mais noticiário desagradável da região nas próximas semanas.


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