Apenas mais um capítulo

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E elas foram aprovadas. A grande odisseia do programa nuclear iraniano caminhou em direção de uma nova rodada de sanções no âmbito das Nações Unidas. Após uma “acirrada” votação, as sanções foram aprovadas hoje na reunião do Conselho de Segurança por 12 votos a favor e apenas 2 contra – Brasil e Turquia – além de uma abstenção. Apesar de seus membros permanentes afirmarem que as medidas eram necessárias, essa mensagem inequívoca ao Irã sustentou-se em contradições.


Mesmo consolidado o acordo que o próprio Conselho de Segurança propôs no final de 2009 – porém efetivado por Brasil e Turquia –, as sanções são levadas adiante como a única forma de resolver a questão. O argumento é que o Irã ganhou tempo para aumentar seus níveis de enriquecimento de urânio. O discurso é plausível, mas com inconsistências. Com exceção da pétrea posição estadunidense, houve certa onda de otimismo frente ao acordo. Até mesmo afirmaram que o Brasil poderia ser a última esperança de atingir um acordo na questão nuclear iraniana. Mas ao final das contas a balança pesou para o lado dos Estados Unidos, e Brasil e Turquia falharam em agir como cabeças-de-ponte por sobre o rio da discórdia que separa as grandes potências e o Irã.


Nas últimas semanas o clima estava tão propício às sanções que na última terça-feira na cúpula de segurança nuclear dos países da Ásia, o primeiro-ministro russo Vladimir Putin já deixava transparecer a aprovação da medida quando afirmou que as sanções não deveriam ser prejudiciais ao povo iraniano. Assim, a mais dura rodada de sanções contra o Irã trouxe restrições a outros bancos iranianos no exterior, estabeleceu vigilância nas transações com qualquer banco iraniano no exterior, ampliou o embargo a armas e cria entraves à atuação de 18 empresas e entidades, e ainda adicionou novos nomes à lista de suspeitos de colaboração com o suposto míssil nuclear iraniano (para o texto na íntegra, clique aqui).


Em certa medida o grande historiador clássico, Tucídides, tinha razão ao retratar o episódio do diálogo de Melos da Guerra do Peloponeso. O que podem, os mais fortes fazem, e os fracos, a eles cedem. Apesar de não lidarmos estritamente com o poder militar atualmente, há certas relações de força que impedem efetiva mediação de países como Brasil e Turquia em delicadas questões como o caso nuclear iraniano.


Mas afinal das contas, trata-se aqui de um sucesso ou de um fracasso diplomático? É difícil dizer agora. Mas algo é certo. Mesmo sendo nebulosas as intenções do Irã a via mais prudente não é a do bloqueio e a do descrédito. Haja visto que o Irã já respondeu a elas na mesma moeda, com base no mesmo descrédito. Nesse sentido a declaração do secretário de Defesa estadunidense, Robert Gates, de que a tentativa de aumentar a segurança do Irã tem criado mais insegurança – inferência ao conhecido dilema de segurança – pode voltar-se contra ele mesmo. No caminho da aprovação de novas sanções o Conselho de Segurança está restringindo cada vez mais as vias de negociação e complicando ainda mais a crise nuclear.


Mas como dar crédito a um estadista que viola princípios do direito internacional, atiça rusgas históricas e levanta suspeitas da AIEA, negando inspeções? A resposta não é simples, tanto que a questão da confiança transcende o caso iraniano. É algo que já garantiu e ainda garante grandes discussões no âmbito das Relações Internacionais. Os membros permanentes do Conselho de Segurança afirmaram que estão abertos à negociação – um pouco direcionada à maneira que propõe e aos resultados que visam – e reiteraram o papel essencial do Brasil e da Turquia nesse mérito. Assim, aquilo que era para ser o final de um livro consolidou-se apenas como um novo capítulo dessa longa estória de desconfiança no sistema internacional. Aguardemos até o próximo capítulo.



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