Aos 17 minutos do primeiro tempo…

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Quem assistiu ao clássico do futebol espanhol? Sim, no último dia sete de Outubro, em pleno jogo entre Real Madrid e Barcelona, o qual terminou empatado em 2×2, ocorreu um episódio de chamar a atenção de qualquer observador que está mais preocupado com outras questões além dos famosos gols de Cristiano Rolando e Messi. Estou falando da manifestação protagonizada pela torcida do Barcelona, que dá nome à capital da comunidade autônoma espanhola de Catalunha. (Quem não viu, pode ver aqui). 

Aos dezessete minutos e catorze segundos do primeiro tempo, quase cem mil vozes entoaram um grito de independência! Por que neste exato minuto e exatos segundos? Foi uma referência ao ano de 1714, quando os catalães foram derrotados e dizimados pelas tropas do Reino da Espanha na Guerra de Sucessão. Acompanhando as recentes crises econômicas, bem como os altos índices de desemprego que chegaram à casa dos 25% para os espanhóis, este tipo de manifestação separatista começou a ganhar um peso nunca antes imaginado na Europa. 

A Catalunha, juntamente com o País Basco (que é país somente no nome), são os dois exemplos espanhóis de aversão ao poder central do Estado. Catalães e bascos não se sentem representados pelo governo espanhol e não têm identidade para com o mesmo. Muito além disso, representam um debate contemporâneo que põe em cheque a figura do Estado, o qual, teoricamente, deveria prover os requisitos básicos aos seus cidadãos. Num momento em que a capacidade do Estado em controlar seus territórios é declinada e a volatilidade do mercado financeiro foge do seu caráter centralizador, está sendo comum ver este tipo de “reviravolta” nas mais variadas partes do mundo. 

Isso acontece em Quebec, a maior província canadense, em partes na região autônoma de Hong Kong e por aí vai. Mas, em sua maioria, os principais casos são europeus, especificamente dentro da União Europeia. Mesmo estando limitados pela Espanha, Catalunha e País Basco possuem fortes relações econômicas e cooperativas com o país vizinho, a França. Flandres, ao norte da Bélgica, pode concluir tratados com terceiros países, obter representação diplomática para além de suas fronteiras e participar da agenda de política exterior belga. Escócia, parte do Reino Unido e “vítima” dos interesses ingleses, tem um escritório executivo em Bruxelas, atua com uma Agência de Desenvolvimento em mais de quinze países e participa formalmente do Comitê das Regiões, instituição do bloco europeu que conta com a participação de organizações políticas locais (cidades, regiões, etc.). 

Assim, Catalunha, País Basco, Flandres e Escócia são a ponta de um iceberg que está, progressivamente, descongelando. O grito dos catalães no jogo entre Real Madrid e Barcelona pode parecer algo pontual, mas não é. É reflexo da crise estatal e do processo de integração da União Europeia. Novos atores entram em cena, inclusive aqueles denominados de “subnacionais”, ou seja, aqueles que estão dentro do Estado, seja uma comunidade autônoma, região, província, cidade, etc.

Os gritos clamando por independência são reflexos das novas relações internacionais. De uma simples competição de futebol a um câmbio político de grandes proporções, tudo é possível. Fiquemos atentos aos próximos lances das partidas.


Categorias: Conflitos, Política e Política Externa


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