Ao vencedor…

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A contagem dos cerca de 5 milhões de votos para presidente no Afeganistão (1/6 da população total e 1/3 da população em condições de votar) está prevista para acabar apenas em 3 de setembro (ou 17, não há um alinhamento). Contudo, tanto Karzai (atual presidente) quanto Abdullah (ex-chanceler) já declaram vitória apesar de apenas 10% dos votos estarem apurados. Seria cômico, digno do mural de bizarrices da política internacional, se não fosse tão sério.

Em junho o nível de ataques de insurgentes atingiu recorde: 400 em apenas uma semana. O presidente aprovou uma lei que permite aos maridos não alimentar suas esposas caso as mesmas se recusem a ter relações sexuais. Durante as eleições, militantes do Taleban impediram a votação em vários pontos do país (sobretudo no sul). Obama e vários líderes ocidentais já elogiaram as eleições, e a “determinação do povo afegão para construir a democracia”….

Tá, mas quem são esses senhores? Karzai já apoiou o Taleban, mas abandonou o barco quando eles caíram. Aclamado presidente interino em 2001 e eleito em 2004, é acusado de corrupção no governo, desenvolvimento vagaroso e morte de civis em ataques estrangeiros provocaram uma queda em sua popularidade. Negociações de paz com Taleban são prioridades se reeleito. Por outro lado, Abdullah tem passagem livre pela OTAN. Nomeado chanceler no governo interino de Karzai. É médico e promete combater a corrupção.

É possível uma eleição reta em um cenário tão turbulento? Há chances de que um segundo turno ocorra. São 30 candidatos ao pleito, e corre um burburinho de fraude.

Repeteco iraniano. Dessa vez, segundo jornalistas da BBC, milhares de cédulas foram vendidas em Kabul. Um funcionário afirmou ter recebido ofertas de várias cédulas, que estavam sendo vendidas a menos de US$ 10 cada.

A OTAN já está mandando mais contingente para a região. O fato é que, por estar sob tutela da Aliança, as lideranças ocidentais não vão admitir tão cedo que falharam em construir a democracia lá. Prova disso é que já se precipitaram em congratular o processo. Sim, a OTAN falhou no mais importante: deixaram de lado a sedimentação de um processo de desenvolvimento econômico e abriram mais brechas para a atuação do Taleban. A pobreza abre espaço para que o Afeganistão permaneça na idade média, e isso não tem nada a ver com islamismo. A situação extrema em que o país se encontra propicia o fanatismo, não apenas no Afeganistão mas no Paquistão também, e em tantos outros cantos do mundo.

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