Ao vencedor, as batatas

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Eis a profética sentença de Quincas Borbas, personagem reconhecido dos romances machadianos, entoando no presente. A ela, poderia ser incluso o comentário que Borbas lhe endereçou: “A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação”. Duas frases de impacto que atravessam os anais de um século para conferirem inteligibilidade à realidade atual. Ah, sim. Estamos falando de Israel, o vencedor a quem se entregam as batatas, numa típica celebração do auto-sucesso que representa a ruína alheia.

Acreditem, o próprio exército israelense já nomeou uma comissão interna para investigar os ataques cometidos aos navios da “Frota da Liberdade”, que se destinaria a fornecer ajuda humanitária aos palestinos que vivem em Gaza, contrariando as pressões da ONU e de vários países, os quais propõem o estabelecimento de uma comissão de investigação internacional independente. Israel é de fato a terra das incoerências, não bastasse o ex-premiê Ehud Olmert declarar que o exército israelense é o mais ético do mundo depois de seu avanço exterminador sobre Gaza, no início do ano passado, agora o país quer se eximir de seus erros. A própria justificativa que prestou ao Conselho de Segurança, na semana passada, é trivial e característica de seu governo: os ativistas traziam uma mensagem de ódio e violência.

Ora, está-se praticamente diante da reinvenção do anti-semitismo sob uma matriz árabe, e não judaica como outrora, ornamentada por um sionismo tão fundamentalista quanto alguns extremismos islâmicos. Na esfera doméstica, Israel agora enfrenta fortes manifestações política contrárias. Chegou-se até mesmo a se propor no Knesset (Parlamento) uma moção contrária ao governo do atual primeiro-ministro, Binyamin Netanyahu, pela líder da oposição, Tzipi Livni. Consta no documento que o governo poderia ter evitado o isolamento internacional e que ser vive o pior momento da história do Estado judeu. Nota-se, portanto, que país está padecendo de uma crise de legitimidade interna e externamente.

Depois dos desdobramentos da semana passada, poder-se-ia até mesmo se deixar seduzir por uma perspectiva reducionista com relação aos confrontos no Oriente Médio: não há paz, porque Israel não quer. Esta semana, Netanyahu se encontraria com o Obama para debater as negociações diretas pela paz na região. Malogrou a iniciativa, assim como a anterior, quando Joe Biden, vice-presidente norte-americano, foi para o país intermediar as negociações com os palestinos e o governo israelense optou por expandir seus assentamentos pela Jerusalém Oriental.

Contudo, infelizmente, é triste ver que o Conselho de Segurança prefere ficar discutindo sanções ante a uma situação hipotética (a “bomba atômica iraniana”), negligenciando a aplicação das mesmas a situações reais. Israel só se conserva pela guerra – não foram os árabes que constantemente se expandiram desde 1948 – e enquanto não conter esse ímpeto frenético a paz será sinônimo de destruição, induzindo ao extermínio ou dos judeus, ou dos árabes. O físico Stephen Hawking disse numa entrevista em abril que há vida inteligente fora da Terra, mas que não seria recomendável a humanidade buscar o contato com os alienígenas, pois os resultados seriam semelhantes à chegada de Colombo à América. Nem seria preciso Hawking ir tão longe, se ele considerasse os contatos entre humanos no Oriente Médio. É preciso acabar com as batatas inglórias de Israel!


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