Anjos e Demônios

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Há um ano e meio atrás assistíamos a uma multidão furiosa armada com paus, pedras e fuzis. Em meio a ela um homem quase morto sendo carregado. Uma imagem digna de pena. A filmagem, feita por um celular, seria interrompida antes do final daquele episódio: a sua execução no meio de uma das ruas de Sirtre, na Líbia. Qualquer pessoa que não tivesse acompanhado as notícias da época opinaria facilmente que aquele homem era um coitado, carregado por uma multidão de desalmados. Mas naquele momento, para a maioria, ele era um ditador assassino sendo caçado por um grupo de rebeldes que buscavam libertar o seu povo.

Muammar Gaddafi, até então líder da Líbia, era o homem daquela filmagem. As últimas semanas antes de sua morte haviam servido para que se transformasse em um daqueles líderes de péssima reputação, odiado por todos os lados. As acusações contra si eram extensas, desde terrorismo a ser um ditador assassino de seu próprio povo, massacrando minorias e manchando suas mãos com milhares de mortes. Seguindo a opinião quase unânime do mal que representava,  grupos e meios de comunicação de todo tipo, inclusive organizações e partidos políticos do Brasil, colocaram nele a imagem do mal personificado e no grupo de rebeldes a chance de um mundo livre de mais uma sombra.

Durante os meses de conflito entre rebeldes e forças do governo, a imagem de luta do bem contra o mal se reforçou em detalhes. Houve até quem na imagem dos rebeldes, com camisetas no rosto e empunhando armas, enxergou ali a luta contra todas as desigualdades e injustiças do mundo. Até assistirmos a filmagem. Aquela gravação de celular não só foi o final da guerra civil e de Gaddafi, mas também da utopia sobre aqueles sujeitos contrários ao ditador. A barbárie de seu assassinato, sem julgamento, uma execução filmada a céu aberto, não só chocou a quem assistiu, mas descumpriu qualquer ideia do que temos de justiça e de como agem aqueles que se colocam ao seu lado. Em outras palavras, naquele momento Gaddafi e rebeldes deixavam de ser os contrastes entre si, para serem praticamente iguais em suas ações e métodos.

Um ano e meio se passou e a Líbia segue patinando em disputas de lideranças regionais pelo poder. Tudo que existia de mais obscuro dentro daqueles personagens sem rosto, tingidos de revolucionários de dias melhores, transpareceu. O grupo de rebeldes, em união unicamente pelo ódio a Gaddafi e seu regime opressor, se espatifou em dezenas de grupos menores que nada tem em comum e que ameaçam entrar em conflito entre si. Representantes extremistas, grupos terroristas como a Al-Qaeda, fundamentalistas e uma série de pessoas com interesses até então encobertos pela necessidade da retirada do ditador do poder surgiram a cada dia. A Líbia seguiu o futuro incerto da Primavera Árabe, em tempos pós primavera.

A crise na Síria, que durante muito tempo disputou espaço com a guerra na Líbia, pode ser comparada a esse episódio em muitos aspectos. Nos últimos dias foi deixada de lado pelas constante ameaças da Coréia de Norte, que até agora apenas obtiveram sucesso em chamar a atenção do mundo. Fato é que o regime sírio segue passando por enormes turbulências, enquanto as forças oposicionistas aumentam seus ataques ao governo oficial. Apoio não falta aos rebeldes, reconhecidos por muitos já como o governo sírio de fato. O que não deve passar em branco são novas informações que deixam claro que os rebeldes não são exclusivamente financiados por grupos e governos tidos como democráticos. Na verdade, nem o interesse desses governos em apoiar os rebeldes é até agora claro.

Desde o inicio do avanço das forças oposicionistas, sabemos que parte desse grupo é financiado abertamente pelos EUA. A novidade é que agora também sabemos que enquanto isso outra parte é financiada pela Al-Qaeda. Novamente estamos às voltas de uma possível revolução de um grupo múltiplo, com interesses dos mais diversos. E novamente grande parte acredita que isso faça parte de um momento democrático, e que a Síria será melhor sem o presidente atual, nas mãos de forças que nem ao menos conhecemos o rosto. Após o fim do regime sírio, se isso ocorrer, é certo que os rebeldes se comportarão da mesma maneira, se livrando das suas atuais identidades de grupo reunido pela oposição a um regime totalitário e quase que unanimemente criticado, a vários grupos compostos por democratas, terroristas, fundamentalistas, almejadores do poder ainda mais totalitários que a ditadura atual etc.

A disputa política no mundo Árabe é assim, um balaio de gatos de uma complexidade sem tamanho, em que cada passo significa um risco, tanto para os participantes das disputas políticas, tanto pra quem ousa compreender minimamente como elas funcionam. Os múltiplos interesses estão longe de serem solucionados, independente de queda ou surgimento de novos governos. Os personagens obscuros também não. Sem saber o interesse das forças que regem esses grupos que vemos pela TV tão inspiradores, os rebeldes, como saberemos como estamos nos posicionando entre anjos e demônios?


Categorias: Conflitos, Oriente Médio e Mundo Islâmico


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