Amigos da Síria

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Segundo um pensamento atribuído a Aristóteles, “ter muitos amigos é não ter nenhum”. No dia em que se reuniram na Tunísia os “Amigos da Síria” – grupo de países formado para discutir a situação do país e pedir a cessão da violência contra o povo – vale a reflexão acerca da aplicabilidade (ou não) dessa frase neste cenário particular.

Tal como já abordado em posts anteriores no blog (aqui e aqui), a situação de protestos populares na Síria tem se prolongado e atinge níveis alarmantes de violência e destruição, especialmente em meio à população civil. Hoje, a Cruz Vermelha foi (finalmente) autorizada a agir na cidade de Homs, a terceira maior do país, que sofre há aproximadamente 20 dias com brutais ofensivas do governo.

Ainda no dia de hoje, a conferência internacional “Amigos da Síria”, organizada pela Liga Árabe, reuniu na cidade de Túnis os principais líderes mundiais em uma tentativa diplomática de proposição de medidas em apoio ao povo sírio, contra a repressão governamental.

De fato, esta iniciativa deve se restringir ao âmbito diplomático, com medidas de pressão e propostas paliativas de ajuda humanitária, especialmente porque entre a lista de “amigos do povo sírio”, certamente não se encontram Rússia e China – importantes atores no jogo internacional. O caso é que, pautados em interesses nacionais, estes dois países têm deixado claro seu apoio ao governo sírio, vetando as resoluções do Conselho de Segurança relativas à renúncia de Bashar-al-Assad (veja post a respeito aqui).

A “amizade” (talvez não em sua mais pura versão, por assim dizer) constitui um elemento estratégico nas relações internacionais. Boas relações bi e multilaterais significam certamente bons frutos políticos e econômicos, em diversas perspectivas. No caso do apoio à causa popular síria, contudo, as relações amistosas em questão extrapolam a esfera puramente interestatal, envolvendo um embate direto entre os interesses – e os aliados – do governo e do povo, diante ainda de uma urgência humanitária em grandes proporções.

Isto posto, talvez a citação aristotélica (?) possa/deva ser adaptada na análise deste caso. Para o povo sírio, ter muitos amigos (mais de 70 países participaram da conferência de hoje!) não significa necessariamente não ter nenhum, já que a pressão internacional é valiosa para promover mudanças estruturais. Entretanto, ter muitos amigos dentre os quais não se encontram todas as potências detentoras do veto onusiano pode, sim, gerar inconvenientes e dificultar o sucesso de qualquer operação…


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