Ambiente nervoso

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Antes de começar, convido o leitor a ver um pequeno vídeo. Um pouco de humor para começar um post bem sério (não se preocupem, vai fazer sentido no final): veja o vídeo aqui.

Esse esquete brinca com aquele joguinho famoso e divertido em que se deve destruir castelos usando aves suicidas. Mesmo quem não fale inglês deve ter entendido a historinha: o acordo de paz entre os dois lados (para dar fim a um conflito “sem sentido e que custa a milhares de pessoas …seu tempo livre”) é quase alcançado, mesmo com brigas, acusações mútuas e discussões constantes, mas no fim é sabotado por um elemento radical que faz ir tudo por água abaixo. No fim, a guerra recomeça e a “missão falha”.

Não me surpreende que esse quadro tenha surgido em um programa de humor israelense. Afinal, eles estão mais do que acostumados a negociações de paz que acabam minguando. E essa semana promete: deixando um pouco de lado as discussões do decênio do 11/09, nesse dia 20 começa a 66ª Assembleia Geral da ONU, e a tentativa palestina de reconhecimento de seu Estado perante a comunidade internacional.

Apenas retomando a questão: os palestinos precisam da aprovação do Conselho de Segurança e de dois terços da Assembleia Geral para que tenha seu Estado reconhecido. O problema: Israel do direitista duro Nethanyahu sequer cogita a possibilidade, e tem o apoio dos EUA, que vetariam a questão no Conselho de Segurança. Com isso, na eventualidade da proposta passar na Assembleia Geral, a Palestina pode ser reconhecida como um Estado, mas não sendo membro da ONU.

Na prática, nada mudaria: territórios ocupados permanecem ocupados, e por aí vai. O problema maior se encontra entre as partes, mas especificamente nos grupos radicais: por mais que o reconhecimento desse Estado possa fazer com que o grupo mais conservador em Israel seja influenciado a rever suas posições, inclusive para um processo de paz, os grupos radicais palestinos vêm com suspeitas esse reconhecimento – para eles, o mais importante seria varrer o inimigo do mapa, e ter seu Estado reconhecido implicaria em aceitar a solução dos “dois Estados”, e coexistir com Israel.

A população também se mostra indiferente – como na prática nada muda, o temor é que as coisas piorem no campo econômico, já que Israel e EUA podem retaliar economicamente a Autoridade Palestina (que depende tanto de auxílio dos EUA quanto de arrecadação de impostos de Israel). Há também o temor de que aumente a repressão nos territórios ocupados.

No fim, parece que todos perdem um pouco. A ONU terá esse constrangimento de reconhecer um país sem poder abraçá-lo. Os EUA, se não conseguirem aliados no CS até lá, vão fazer o papel de “vilões” vetando sozinhos o projeto. Na prática, nada mudará em Gaza e na Cisjordânia, e se for poderá ser para pior, com recrudescimento da ocupação israelense e possivelmente um fortalecimento dos elementos radicais. Israel será cada vez mais isolado na região, enfrentando um misto de paranóia e perplexidade com a recente perda de aliados (Egito, Turquia, etc.). A força crescente do Irã assiste tudo, à espreita e com um leve sorriso. Infelizmente, as possibilidades de resultados não são as melhores.

O reconhecimento do Estado palestino é um passo legítimo e fundamental para a paz na região, mas se for dado nessas condições ocorrerá em má hora, quando uma das partes não tem interesse no tema e a outra não colherá frutos práticos – discutir de cabeça quente nunca ajuda. É uma aposta bastante arriscada, que pode ajudar a flexibilizar setores mais conservadores, mas também tem o potencial de alimentar extremismos. Relembrando o esquete mostrado no começo do texto, basta um radical para por tudo abaixo – e as chances para isso não serão poucas se essa votação vingar.


Categorias: Conflitos, Defesa, Estados Unidos, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Paz, Segurança


2 comments
Álvaro Panazzolo Neto
Álvaro Panazzolo Neto

Muito obrigado Mario. De fato, a tendência é que haja mais possibilidades de conflito do que soluções com esse pedido de reconhecimento - quase que uma "birra" do Abbas.

Mário Machado
Mário Machado

Pior pelo que andei lendo do Hamas isso ainda termina em outra guerra civil palestina. Obrigado pelo texto equilibrado Álvaro ajudou a aplacar algumas das muitas dúvidas que tenho sobre esse imbróglio todo. Abs,