Alheia à ordem

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Era uma vez um mundo. Um mundo que havia sofrido tanto com horrores de guerras que decidiu mudar. Optou por tornar-se um lugar onde as fronteiras existiam apenas formalmente e os princípios do direito internacional, do desarmamento e da paz regeriam a todos. Um lugar sem problemas aparentes, mas que, caso houvesse alguma tensão internacional, logo viria a mão amiga de uma organização apátrida e apartidária, as Nações Unidas, para resolvê-la. Assim, todos viveriam felizes para sempre em uma comunidade internacional regida pela força do direito e dos valores da humanidade. 

Um cenário muito bonito, de fato. Mas logo veríamos que haveria de ser construído e motivado por alguém, alguma grande potência internacional, em um esforço conjugado do restrito condomínio dos poderosos. Que, do ideal, dos princípios morais e valores criados, também surgiriam mais conflitos, difíceis de se justificar plenamente dentro dessas normas. Como resultado surgiriam países isolados que não aceitariam as mudanças no cenário; sendo, portanto, produtos rejeitados desses mesmos princípios. E nosso mundo perfeito rui, trazendo-nos de volta à realidade do mundo em que vivemos. 

Dos muitos exemplos de que temos por aí desse tipo de produto, a Coreia do Norte é o mais latente. Aquele mais escancarado. Uma ditadura, que se diz comunista, isolada do mundo, questionando a ordem liberal criada pelos EUA (e consentida por todos os demais), e vivendo presa nos tempos de uma guerra que viu seus últimos tiros há praticamente 60 anos. Não soaria tão estranho e incompreensível os testes nucleares e de mísseis e nem mesmo a cultura bélica do país. Como disse em outro post, eles são a mais comum forma de afronta à moral e aos bons costumes internacionais. É difícil ser determinista a ponto de dizer que tudo o que acontece lá foi resultado da ação do Tio Sam e da Guerra Fria. Mas dá para falar que esses dois eventos tiveram uma influência na construção do que a Coreia do Norte é hoje.  

Anteriormente, sob a tutela da União Soviética, era muito mais simples para o país manter um programa nuclear (muito embora se tenha confirmação da cooperação nuclear entre a URSS e a Coreia do Norte durante a Guerra Fria). Foi somente a queda do muro de Berlim e a volta à pauta do debate sobre desarmamento e não-proliferação para além das grandes potências que mostrariam o quão isolada o país de fato estava. A Rússia e a China, antigos aliados do bloco comunista, ainda defenderam a “auto-determinação” da Coreia do Norte e aceitaram os questionamentos do país na ONU. Até um certo limite. 

O resultado de cada movimento fora do aceitável pela ordem seria as sanções lentamente aprovadas no Conselho de Segurança e aquelas particulares de cada potência. A população passaria a sofrer com a falta de alimentos e abastecimento, e o governo vociferaria contra as potências, intensificando seu espírito belicoso em um ciclo quase sem fim. Assim, as cartas do isolamento foram dadas. 

 

Vídeo que mostra como se reforça a visão de inimigo e da guerra no país…


E a Coreia do Norte tornou-se “o estranho”. Essa condição levou o país a um caminho muito particular.  Mesmo depois da Guerra Fria, continuou a se focar na construção de um inimigo externo. Levou isso às últimas consequências. Assustou o mundo quando denunciou ao Tratado de Não-Proliferação Nuclear em 2003 e é bem sucedida em passar aos norte-coreanos a ideia de que a guerra está cada dia mais próxima. Assim, o belicismo tornou-se o recurso para unir a população e impedi-la de opor ao regime. Ele só diminui quando a coisa aperta economicamente.

Um recurso que o governo usa bastante. Praticamente a cada década os líderes fazem questão de confirmar a posição do país de excluído e a soar os sinos da guerra, contra a Coreia do Sul e os Estados Unidos. Foi assim em 1994, em 2003, em 2009. Não poderia ser diferente em 2012 e 2013. É um ciclo vicioso. Apesar de previsível e compreensível, as ações da Coreia do Norte não deixam de assustar as potências. Porque quando o assunto é armas nucleares, nunca se sabe se o tal ciclo pode se romper e passar para o conflito…


Todas essas condições históricas parecem ter dado pouca escolha política à Coreia do Norte. Ou ela abandona completamente o regime ou continua nesse ciclo vicioso, de belicismo e pressão econômica. Por essas e outras que assim vive, e sobrevive, a Coreia do Norte: alheia à ordem internacional.

[Para uma interessante análise sobre a ameaça do discurso norte-coreano, clique aqui. Para mais sobre a crise atual: 1, 2, 3, 4, 5]


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