Algumas lições da inocência

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A inocência dos muçulmanos. Título do curta metragem que satirizou o profeta islâmico Maomé. Basicamente, um condensado de ódio, intolerância, radicalismo e pré-conceitos (clique aqui para conferir), supostamente elaborado por judeus e cristãos coptas. Em um mundo interconectado pela internet e pelas redes sociais, não tardou para que o vídeo manifestasse-se nos computadores dos países muçulmanos com uma dita tradução para o árabe, despertando um ímpeto de vingança entre o Oriente e o Ocidente, leia-se, entre segmentos das populações de países com forte influência muçulmana e dos Estados Unidos. 

Resultado: mais ódio e vingança. Extremismos. As baixas multiplicaram-se na mesma velocidade que o vídeo espalhou-se. Um diplomata, Christopher Stevens, e três funcionários da embaixada estadunidense na Líbia pós-Kadafi, mortos (clique aqui para ver a embaixada pós-ataques). Protestos em todo o mundo árabe. Do Egito, grande centro do mundo árabe, para Sudão, Iêmen, Líbano, Paquistão, Irã. E a lista amplia-se (aqui para um mapa deles). Muitas das manifestações foram extremamente violentas. Há até quem diga que, no caso líbio, a segunda onda de protestos teve origem de grupos pró-Kadafi que buscaram demonstrar a instabilidade de novo regime. A coisa foi tão feia que a Google teve que bloquear o vídeo nesses países e lidar com o pedido do governo estadunidense de removê-lo da internet permanentemente. 

Ora, existem algumas lições que pode-se tirar desse curioso evento. Vou citar quatro de muitas outras que podemos tirar. 

A primeira, como nos mostrou Clovis Rossi em seu recente artigo, é que “misturar Deus (qualquer deus) ou seus profetas com política é receita certa para o horror”. Em outras palavras, os extremismos geram radicalismos que, por sua vez, só existem (ou se manifestam) pelas oposições. A partir do momento que não se tem um outro lado, um antagonista, aquele que quer influenciar, o extremo desaparece. Por isso, o vídeo é uma clara provocação aos radicais islâmicos para que radicalizem também, e possam ser fonte de mais crítica e o ciclo de vingança e radicalismo continuar, sem fim. Da mesma forma, os protestos violentos são provocações aos Estados Unidos, para que radicalizem, e possam ser fonte de mais críticas entre grupos extremos muçulmanos (como também coloca Stephen Walt). 

A segunda é o reforço da ideia de que a dita Primavera Árabe não foi o florescer da democracia nos moldes ocidentais nem mesmo o nascimento de governos aliados aos Estados Unidos. Foi somente a oposição às ditaduras. A instabilidade da Líbia pós-Kadafi e a posição de crítica moderada sobre os protestos do novo governo egípcio ajudam a pensar nesse ponto. Obama mesmo já disse que o novo Egito “não é nem aliado e nem inimigo dos EUA”. A dificuldade do Tio Sam em lidar com a região sempre foi grande. Agora, com novos governos muçulmanos emergindo, com os quais não se pode garantir que haja “alianças”, a coisa pode ficar ainda mais complicada. 

A terceira é que qualquer excesso pode se tornar capital político para opositores. No caso, vemos Mitt Romney se esbanjando com declarações sobre o quanto Obama não foi assertivo ao lidar com algo que ameaça os “valores americanos”. Existem muito mais lições do que essas míseras três. 

Mas, de toda forma, é importante lembrar que extremismos existem de ambos os lados e que não necessariamente representam a opinião do conjunto da sociedade. Como outro exemplo, não tem como esquecermos da figura ímpar de Terry Jones, (clique aqui para mais no blog), que, há quase exatos um ano, quis instituir o dia de queimar o Corão(e já declarou apoio ao filme). 

Se a “inocência” dos muçulmanos foi o filme, a “inocência” dos americanos foi o resultado. Não há inocentes de fato e nem posições que podem ser generalizadas como de toda a sociedade nessa história. As lições dela vem do radical escondido sob o manto da inocência e da intolerância. O que há é um ciclo de extremismos, sem fim, com um intuito claro de gerar efeitos políticos.

[Para mais clique aqui e aqui]


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