Alguém quer damascos?

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Uma onda de protestos, mortes e insatisfação social tomou conta da Síria, país árabe situado na chamada “Ásia ocidental”, desde março de 2011 e, de lá pra cá, sua capital, Damasco, começou a retratar uma série de implicações características do atual cenário internacional. Se meses atrás o centro das atenções era a Grécia e/ou o Egito, sem dúvidas a Síria tomou seus postos nos noticiários.

De uma maneira ou de outra, vejamos quais são as implicações causadas por conflitos internos nas relações internacionais, utilizando, para tanto, o caso sírio. Este é bastante singular e central, pois coloca em questão diversos pontos que devem ser debatidos e indagados:

a) Oriente Médio: continua a se mostrar como uma das regiões, ou talvez a principal região, mais conflituosas do mundo. De um lado estão Irã, Síria, Rússia e China. De outro aparecem Israel e Estados Unidos. Nem preciso me estender no debate, é digno de contraste e oposição;

b) Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU): Rússia e China vetaram a resolução contrária ao presidente sírio, Bashar al-Assad, e colocaram mais dúvidas ainda sobre a política dos “cinco grandes” da organização. É claro que ambos os países seguiram suas linhas de política externa, mas a pergunta que voltou com total força foi: “Já passou da hora de haver uma mudança nos membros permanentes e no modo de resolução de litígios do CSNU, não?”;

c) Liga Árabe: antes da Primavera pouco se falava nesta organização. Ela vem demonstrando o quão importante é a atuação de vários países por meio de um órgão único que leva ao debate os ideais envolvidos. A liga mostra-se contrária ao governo sírio e vem dialogando constantemente com as Nações Unidas;

d) Democracia: a Síria simboliza, do mesmo modo que o Egito, a força dos movimentos favoráveis à democracia, mas também evidencia a complexidade de se chegar, de fato, a um “governo do povo”. Parece que ainda existirá um longo caminho para isso, porque este regime representa muito mais do que reivindicações sociais;

e) Sanções: não se sabe ao certo se os bloqueios comerciais e a suspensão de exportações colocarão fim à problemática interna do país. Tais ações são mais recorrentes por parte dos Estados Unidos, o qual, em tempos passados, utilizou-as contra os iranianos, norte-coreanos e os próprios sírios. Mês passado, foi a vez da União Europeia aprovar sanções ao governo de Assad, mas, mesmo assim, Bruxelas, sede da Comissão e do Conselho europeus, aposta na via diplomática e no diálogo para pôr fim a esta questão.

Estas são apenas algumas constatações que podem ser pensadas em meio à repercussão causada, ultimamente, pela Primavera Árabe. É interessante observar, através deste viés, como uma desordem interna pode servir de base para se analisar inúmeras problemáticas internacionais. Com certeza alguém quer Túnis, Cairo, Trípoli e Damasco. A região interessa a todos.


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