Água, o fator humano

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Quanto tempo uma pessoa vive sem comida? E sem água?

Para a primeira pergunta, em torno de oito semanas. Para a segunda, menos de uma semana. Obviamente, há outros fatores que devem ser considerados, o que leva os especialistas a afirmar que o período pode variar de acordo com a condição de cada pessoa. Mas, em termos gerais, é senso comum concordar com tais assunções.  

Quando estudamos as grandes guerras mundiais ou conflitos armados, logo vinculamos sua origem as mais diversas causas. Para ficarmos com alguns exemplos, cito: comércio, território, prestígio, fontes de alimentação, fontes energéticas, enfraquecimento de um rival, entre outros. No entanto, o recurso mais básico para a vida humana é a água. Como se encaixa este fator nos conflitos e disputas internacionais? 

Já em 1995, o então vice-presidente do Banco Mundial, Ismail Serageldin, alertava a comunidade internacional, “as guerras do próximo século serão vinculadas ao acesso à água”. Um dos focos principais de disputa (em grande medida regionais) são justamente as fontes de água junto às áreas fronteiriças. Tomando um exemplo na América do Sul, a Bacia do Rio Prata apresenta um potencial risco para um conflito futuro entre Argentina, Bolívia, Brasil, Paraguai e Uruguai. Ao passo em que, o Nilo e o Tigres/Eufrates são regiões atualmente em disputa e/ou negociação.  

Conflitos que emergem em disputas por fontes de água são causa constante de violência e conflitos a nível interno. Tomando em conta ainda que, de acordo com o pesquisador Eriksson, entre 1998 e 2004 mais de 80% dos conflitos armados foram internos e não regionais ou internacionais, pensar uma política internacional mais sólida para a água ganha ainda mais importância. Em um mundo em que cerca de 1 bilhão de pessoas não têm acesso a água limpa, mais de 2 milhões de pessoas morrem anualmente de causas vinculadas a falta de saneamento e água potável e 1 terço da população mundial vive em regiões com grande dificuldade para aceder a fontes de água, é evidente que água deveria ser uma prioridade nas discussões da comunidade internacional.  

A maior parte dos países que vivem sob grande estresse nessa temática está localizada na Ásia e África, especialmente em regiões rurais. Uma pobre estrutura institucional, um parco desenvolvimento econômico-social e o descaso da comunidade internacional servem como um intensificador, colocando estas regiões na beira do colapso interno. Garantir a sobrevivência é a tarefa mais elementar do ser humano, por isso nos alimentamos e buscamos fontes de água, quando o risco é iminente a tarefa toma o rumo “matar ou morrer”, literal em alguns casos.  

Tanto se fala de interdependência a nível internacional. O aquecimento global e as finanças internacionais são os exemplos comumente utilizados. Contudo, a água é também parte da agenda. Regiões fragilizadas institucionalmente e com problemas de acesso e fornecimento de água podem representar um grande risco de instabilidade regional e internacional. Afinal, antes de território, comércio, prestígio, fontes energéticas e alimentares, qualquer ser humano necessita de água limpa para consumo.  

[Mais Informações]

Acordos internacionais: 1

Água e conflitos: 1

Água e conflitos no Oriente Médio: 1,2,3


Categorias: Assistência Humanitária, Conflitos, Direitos Humanos


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