África esquecida?

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Olá, leitores! Por hoje, vou permanecer no mote levantado pelo Kita ontem: a África.

Para quem pensa na África como um continente abandonado a própria sorte, que sofre com miséria e condições sub-humanas de sobrevivência, enfim, um lugar esquecido e negligenciado por tudo e por todos, cuidado. É melhor revermos nossos conceitos. Ou não.

Cerca de 13 das 31 resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas até agora em 2009 dirigem-se nominalmente a países africanos. Isso retoma a imagem de uma situação sem saída, estados falidos, guerras civis, epidemias, violência e genocídios tribais. Hoje com apenas 2,3% do PIB mundial e 1 bilhão de habitantes distribuídos em 56 Estados recortados pelas potências coloniais européias, o continente africano despertou grandes expectativas com relação aos seus projetos de desenvolvimento durante o período de independência. Como bem lembra Fiori, atropelado por sucessivos golpes e regimes militares e pela crise econômica mundial da década de 1970, o continente passou por um prolongado declínio de sua economia até o início do século XXI.

A partir de 2001, no entanto, a taxa de crescimento da economia africana saltou de 2,4% em 1990 para 5,5% em 2008. Ora, a China encontrou na África o território promissor para fornecimento de recursos, com o comércio entre as partes alcançando a cifra de 76 bilhões de euros. Os interesses de todos se resumem basicamente em uma commodity: o petróleo. Afinal, são 8% da reserva bruta mundial. Os investimentos incluem até mesmo a construção de um teatro no Senegal, e o detalhe é que os montantes não estão condicionados a reformas políticas ou humanitárias, como fazem europeus e americanos. Governos exilados pelo Ocidente descobriram a parceria perfeita em Pequim.

As antigas potências coloniais européias ficam para trás não somente no campo das idéias. Competem agora com outros atores emergentes (Índia, Brasil ou Rússia) por recursos secundários, já que mais de 70% dos contratos de obras públicas na África subsaariana são concedidos a companhias chinesas ou indianas. Definitivamente, a influência em países africanos não é mais a mesma de algumas décadas atrás.


Sentindo isso, a Hillary Clinton já em agosto desse ano iniciou uma série de visitas oficiais de 11 dias à África Subsaariana. Sete países foram escolhidos, iniciando pelo Quênia, considerado um território estável. Em seguida, veio a maior potência regional, África do Sul, e Angola, graças às reservas de petróleo. Segundo consta, a última eleição presidencial foi em 1992; e o presidente ocupa o cargo desde 1979. Outra parada foi o Congo: grandes proporções, grande violência, governabilidade mínima. Além disso, a visita contou com visitas à Nigéria, Libéria, que se recupera de guerra civil, e Cabo Verde, muito elogiado por seu modelo de democracia.

Os fatos têm apontado em uma só direção: sim, a África é novamente o fim maior de uma disputa acirrada pela influência na região em busca dos recursos de lá advindos. Ajuda humanitária? Preocupação com a segurança regional? Democracia e desenvolvimento? Só se facilitarem as negociações.


Categorias: África, Ásia e Oceania, Economia, Estados Unidos


1 comments
Luís Felipe Kitamura
Luís Felipe Kitamura

O Obama também visitou o continente. Esteve em Gana, em julho. Poderia os EUA oferecer uma alternativa a China na África? A escolha - ao menos parece - ser pela China, já que seu governo não exige contrapartidas democráticas em suas parcerias com países africanos.