África em prantos

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O mundo está um pouco mais aliviado (ou menos preocupado) com o cessar-fogo entre Israel e o Hamas na faixa de Gaza. Pontos para o Egito, ou melhor, pro presidente Mohamed Mursi, que costurou essa frágil negociação e está se consolidando como um articulador regional mesmo que se mostrando cada vez mais um ditador (em versão light). Crianças voltam às escolas, foguetes param de zumbir pelos ares e o Oriente Médio parece (até o momento) escapa de mais uma guerra inútil. Tudo em paz, não? Digam isso pra África. Se um único conflito no Oriente Médio seria um desastre, na África está sobrando guerra. 

Vamos fazer uma contagem rápida. No Oriente Médio teríamos muito mais gente se envolvendo caso o conflito fosse às vias de fato, mas no fim das contas teríamos apenas um Estado envolvido no problema inicial, com Israel versus um grupo militar. Na África? Temos por cima guerras entre dois Estados (coisa meio démodé no resto do mundo) entre Quênia e Somália, Sudão e Sudão do Sul, além de problemas na Nigéria, Mali e Congo. Sem contar os agregados, como Ruanda, já temos 7 países em estado e guerra. Isso sem contar os que ainda se “recuperam” de ondas de violências anteriores, como a Costa do Marfim e a Libéria (onde as coisas ainda estão complicadas). Alguém viu cobertura disso no jornal? 

Na Nigéria o problema é religioso e cultural, com choques de grupos extremistas contra a influência ocidental. No Congo, rebeldes com apoio de Ruanda conquistaram uma cidade importante e prometem destruir o presidente. No Mali, países africanos enviaram uma força conjunta pra retomar o norte do país, que foi tomado pela Al-Qaeda (isso mesmo…) e virou um mini-Afeganistão nos moldes da época do Taleban. Mas o pior de tudo são os conflitos entre Estados. O Quênia está mandando tropas para caçar terroristas dentro da Somália (que respondem com atentados), e os ataques na fronteira entre o Sudão e seu vizinho do sul são constantes. 

Isso tudo já é uma mostra de como a situação é complicada nessas, e mostram cada um do seu jeito as vulnerabilidades dos países africanos. O caso do Congo mostra o cinismo do Ocidente, que em geral faz vista grossa a regimes aliados que causam distúrbios – Ruanda está armando os rebeldes e ainda assim permanece recebendo auxílio militar de países como EUA e Inglaterra. O caso do Quênia mostra como a falência de um Estado (no caso, a Somália) torna o país um oásis para grupos armados e criminosos. No Mali, a expansão da Guerra ao Terror e seus piores resultados, com o fortalecimento de grupos antes inexpressivos e sua migração para países mais fracos, onde podem prosperar. E o mais trágico, com certeza, o da guerra interminável no Sudão, cuja separação foi considerada um caso e sucesso e uma esperança de paz na região, mas que por causa do excremento do diabo, vulgo petróleo, e a cobiça que gera na elites dos respectivos países, fez com que não houvesse progresso com relação à paz. 

São regiões do mundo em que o medo faz parte da vida de milhões de membros de etnias ou religiões minoritárias, o estupro faz parte do cotidiano de mulheres e meninas, e os soldados, muitas vezes meninos, são treinados para odiar a “outra parte” desde cedo e tem uma expectativa de vida que não chega aos 30 anos. Não existe uma “solução” para isso nem a longo prazo. A não ser ignorar ou fingir que não existem. E essa parece ser a solução dada pela mídia e governos ocidentais.


Categorias: África, Assistência Humanitária, Conflitos, Direitos Humanos, Política e Política Externa


1 comments
Jéssica
Jéssica

Ei,Excelente post!Esse descaso para com o continente africano já vem de longa data. O caso de Ruanda é o maior exemplo. Enquanto ocoria o genocídio, o mundo estava com os olhos voltados para os Balcãs. Obama foi reeleito,mas em seus discursos, muito ou pouco ou quase nada faz referência à África. A mídia como vc colocou negligencia, não dá importância para os conflitos. Muitas pessoas sabem exatamente onde fica Israel, Palestina, e os seus respectivos acontecimentos, mas o Mali, Somália.. (são países??onde ficam??)E assim, mais uma vez, os conflitos aumentam, pessoas morrem, e as potências os negligenciam.