Afeganistão

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Essa semana, o presidente Obama anunciou a intenção de enviar mais tropas ao Afeganistão. Em visita ao Canadá, o novo presidente, inclusive, falou com o primeiro-ministro do país sobre a idéia dos canadenses de reduzirem suas tropas no Afeganistão até 2011.

Uai? Mas não era pro Obama estar tirando tropas do mundo afora ao invés de querer que mandar mais?

Temos de lembrar, no entanto, que o Obama prometeu tirar tropas do Iraque, e não do Afeganistão… E, atendendo a pedidos de que falemos mais da Ásia, vamos aproveitar este gancho para começar!

É claro que existem muitas razões de diversas ordens para que os EUA tenham interesse em não sair do Afeganistão por agora, e, sobre isso, fiquem a vontade para comentar. Eu, no entanto, até pra não tomar muito espaço e tempo, vou falar sobre dois aspectos que acho importantes, um de caráter geopolítico e outro, relacionado à segurança (não necessariamente no modo militar clássico).

Em primeiro lugar, vou levantar uma teoria geopolítica dos tempos da guerra fria que alguns julgam estar ultrapassada, mas que eu ainda penso que explique alguma coisa. Ela foi criada por um tal de Zbigniew Brezezinsky. Em linhas gerais, ele explica os conflitos na guerra-fria entre EUA e URSS nos seguintes termos: A URSS, enquanto potência terrestre, precisava se expandir para um mar quente. No entanto, no lugar mais perto que tinha, a China estava por lá e não deixava. Lembremos que os mares do norte da Rússia são frios.

Assim, restava aos soviéticos tentar avançar pela Coréia, Vietnã ou pela Índia, olhando um mapa isso fica bem claro. No caso da Coréia, houve conflitos, no Vietnã também, mesmo que indiretos. E, para chegar à Índia, tinha um Afeganistão no meio do caminho… Nestes lugares todos houve conflitos entre URSS e EUA, não é mesmo?

E, para os que ainda possam duvidar disso, o tal do Zbigniew Brezezinsky trabalhou no governo dos EUA naquele tempo (na época do Jimmy Carter), na área de defesa, então, é provável que tenham o ouvido por lá ou que sabia mais que outras pessoas…

Eu ainda acho que isso explica muito. Em termos geopolíticos, o Afeganistão representa um enclave importante bem no meio da Ásia, e sua estabilidade e até mesmo controle interessam a qualquer país que pretende manter-se como superpotência. Tanto que a Europa também está muito presente por lá em bases no Tadjiquistão…

E vale lembrar também que a Rússia não está morta… A China está por perto e tem duas potências nucleares por lá, Paquistão e Índia… Além do Irã, é claro…

Menos polêmico que isso, no entanto, está a questão das drogas. Esses dias saiu mais um relatório de drogas da ONU e, como sempre, o Afeganistão continua sendo um dos maiores produtores de papoula. Vale lembrar, e não vou entrar muito neste detalhe que é bastante óbvio, que a ‘cadeia produtiva da droga’ financia muitas das atividades terroristas e que, acredita-se, as bases de comando de muitas células estejam na fronteira do Afeganistão com o Paquistão, principalmente nos territórios do Baluchistão e do Wariristão.

Por isso, acabar com a farra do boi das drogas na região é muito importante para manutenção da segurança não só na região, mas no mundo todo. Além disso, EUA e Europa são os maiores destinos das drogas produzidas lá, que passam pelo Tadjiquistão (rota da seda) e Turcomenistão (rota da Turquia) para irem para os seus destino.

Pode parecer pouco significativo, mas a questão das drogas é muito importante por financiar atividades terroristas, além de estar ligada ao tráfico de drogas e de pessoas, e nem preciso falar que isso é extramamente importante.

Além do mais, a região também tem muito petróleo, não o Afeganistão, mas principalmente o Uzbequistão e quem está perto do que interessa a todo mundo por lá, principalmente a China.

Por isso, em termos estratégicos, é uma besteira deixar o Afeganistão atolando por lá, não é mesmo? E é muito difícil que a OTAN saia de lá tão logo…

[Bom, sobre as notícias de domingo, o projeto está abortado, já que ninguém respondeu!]

[Aguardo comentários da Andrea, principalmente, que esteve comigo representando o Tadjiquistão na Conferência de Cooperação de Shangai sobre este tópico!]


Categorias: Ásia e Oceania


2 comments
Erlon Faria Rachi
Erlon Faria Rachi

AlcirA situação do Afeganistão em si é caótica, sim, e a bagunça vem desde o século XIX, com as escaramuças entre a Grã-Bretanha e a Rússia Czarista naquilo que ficou conhecido como "O Grande Jogo" da Ásia central.Gostaria de fazer um post sobre o que poderia ser uma abordagem brasileira à questão atual do Afeganistão, porém antes disto gostaria de postar aqui alguns comentários prévios, no que se refere à história do Afeganistão pré-Taliban.O Estado Afegão 'moderno' nasceu meio que como a maioria dos países de terceiro mundo, no contexto do fim da segunda guerra mundial. Era uma monarquia até 1973, que foi derrubada em um golpe militar.Seguiu-se um período de anarquia até que as forças do partido comunista afegão tomaram o poder central em Cabul.Adotou-se uma política de ‘modernização’ para ‘extinguir o feudalismo’ tradicional do país, seguindo-se a cartilha soviética adotada com sucesso nas Repúblicas Socialistas Soviéticas predominantemente islamitas da Ásia central.Durante este período entre 1973 e 1979 o que não faltou foram ‘expurgos’ e ‘progroms’ visando eliminar opositores políticos e lideres islâmicos. A supressão da religião é um principio básico da doutrina soviética e foi particularmente mal-recebida num país que tem maioria muçulmana desde o ano 800!.A violência doméstica e a resistência a estes ‘expurgos’ governamentais explodiu. Estima-se que por volta de 1979, metade da força original de 80.000 homens do Exército Afegão tenha desertado.Dentro do contexto da Guerra Fria, a CIA incentivou a criação dos ‘mujahedin’ para combater o poder central apoiado pelos soviéticos, numa estratégia análoga àquela do Vithmin no Vietnã. Esta estratégia foi elaborada pelo Sr. Zbigniew Brzezinski, que você cita no Post. Brzezinski era o Assessor de Segurança Nacional do então presidente Carter, está bem vivo e na semana passada deu uma excelente entrevista no ‘the rachel maddow show’ na MSNBC.Ele declarou em 1998 que o envolvimento da CIA no Afeganistão iniciou-se muito antes de 1980 (os soviéticos oficialmente invadiram em dezembro de 1979). Segundo ele todos os esforços americanos no período, incluindo a chamada ‘Operação Ciclone’, autorizada pelo Presidente Carter em julho de 1979 tinham o único objetivo de FORÇAR uma invasão soviética.Segundo Brzezinski a idéia era forçar uma “armadilha afegã” para o Exército Vermelho. Um atoleiro similar àquele que os EUA tinham acabado de viver no Vietnã.Estes fatos são comprovados por documentos, ordens executivas, relatórios de segurança nacional e ‘briefings’ trazidos à luz após o ‘free information act’ assinado pelo governo Clinton na década de 90. A invasão soviética, portanto, não foi um desejo incontrolável de dirigir-se aos ‘mares quentes’ como Brzezinski afirmou em tom jocoso alguns anos após o fato. Foi o resultado de uma lógica de internacionalização do comunismo soviético, induzida de forma organizada e custeada pela política de um terceiro estado (os EUA).De 1979 até agora são 30 (TRINTA ANOS!!) de guerra praticamente ininterrupta, com exceção do período em que o Taliban governou.A maior parte da população afegã atual (quase 60%) é nascida após o inicio da confusão em 1973. Há um dilema social aí, quando uma população simplesmente não sabe o que é ‘paz’ nem ‘prosperidade’.Há a falência completa da sociedade que já foi organizada. Não há alternativas econômicas e o que resta é o extrativismo (no caso deles, a ‘extração’ da papoula, que cresce como mato nas pradarias e montanhas da região).

lzdls
lzdls

O fato é que Obama não está aumentando o efetivoe militar, mas sim ele pretende transferir os 17.000 soldados do Iraque para o Afeganistão.AbsLuiz