Adeus, Chespirito! Olá, América do Sul!

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Nunca é demais recordar uma figura que marcou a infância e a adolescência – e até mesmo os anos adultos – de todos nós: Roberto Bolaños. Um gênio que traduziu o humor na inocente simplicidade do cotidiano de uma vila. Um herói atrapalhado, nem por isso ingênuo, cujo maior ato foi elevar a cultura latino-americana, muitas vezes marginalizada, ao imaginário popular mundial. Um eterno transeunte que continuará despertando, sem querer querendo, nossos risos mais irreverentes. Chaves, Chapolin, entre outros personagens clássicos, representam o espírito de um povo tropical, às vezes desajeitado, mas sempre alegre, em busca de melhores condições de vida.

É comum encontrar analogias entre a turma do Chaves e países da América Latina, por exemplo, a Chiquinha como a Venezuela ou Cuba, porque se acha independente e arruma confusão com todo mundo. Entre o tributo e a análise, este texto também é uma tentativa de interpretar às transformações da América do Sul, em específico, ocorridas nestes últimos anos à luz de um seriado infantil que tantos nos inspirou. Diferente de outras comparações, pretende-se, aqui, tratar os personagens como pessoas normais – e não como países – que compõem o rico cotidiano desta região.

Em primeiro lugar, uma observação geral sobre o contexto. Entre o fim dos anos 1990 e início da década passada, diversos governos ditos de esquerda ascenderam em praticamente toda a América do Sul, sendo a maior exceção a Colômbia. Sem entrar no mérito se isso ocorreu ou não devido à falência do projeto neoliberal, com base nos preceitos do Consenso de Washington (1989), é possível encontrar uma característica comum entre os líderes ascendentes: a exemplo de Bolaños, todos eles simplificaram os discursos e conseguiram chegar a todas as classes sociais. A erradicação da pobreza e da fome e a redução das desigualdades, previstas na maioria das constituições sul-americanas, tornaram-se o objetivo síntese de um projeto político relativamente simples. Um projeto que propôs enfrentar ferozmente uma realidade histórica negligenciada. Não foi difícil, assim, convencer os habitantes desta vila humilde de que tantos Chaves e Chiquinhas também deveriam ter condições de adquirir a bola quadrada de Quicos.

Houve a inversão de uma fórmula consagrada neste período: o bolo precisa ser repartido conforme o crescimento, não depois de pronto. Trata-se de um crescimento distributivo, às vezes aquém do que se espera, mas que contribua para a melhoria dos indicadores sociais. Daqui para frente, dificilmente as sociedades sul-americanas aceitarão crescer sem inclusão social, independentemente das políticas econômicas adotadas. Convém ainda ressaltar que esse crescimento, embora tenha sido favorecido pela elevação dos preços das commodities, foi alimentado pelo trabalho e aumento de renda. Muitos Seu Madrugas, que antes faziam bicos – engraxate, marceneiro, vendedor de pipoca, etc. –, conquistaram um emprego formal. Muitas Donas Florindas, que já desfrutavam de alguma renda, resolveram abrir um restaurante. Muitos Seu Barrigas compraram mais imóveis, muitos professores Girafales ensinaram mais alunos, muitos viajaram para Acapulco, enfim, muitas pessoas passaram a fazer parte de um processo, ainda incipiente, de transformação social, ao se desprender de mazelas históricas.

O problema é que as lideranças esquerdistas emersas na década passada tinham um discurso claro e simples para quando o Chaves não comia sanduíche de presunto. Agora, ele come. E não quer só o sanduíche. Também quer torta, bolo, churros, pirulito, etc. Mais do que isso, ele quer andar de bicicleta, pegar um ônibus para ir ao parque, deixar de morar em um barril. Há uma ampliação da “nova classe média” – ou, como dizem os críticos, dos “novos proletários” – que modificou seu pleito: da universalização do acesso a serviços básicos para a qualidade desses serviços. Esta nova condição, ainda não sedimentada, é o grande desafio das políticas públicas das próximas décadas, sem deixar de lado o enfrentamento dos desafios históricos. Há um clamor por mudanças na população, eventualmente consubstanciada por uma nova orientação em seus governos, que já se percebe nos pleitos eleitorais apertados – Brasil e Uruguai são os casos mais recentes.

Uma era se encerra, outra começa. A primeira, humorística, a segunda, política. Roberto Bolaños tornou-se o guardião de uma era para a cultura latino-americana e compreendeu, de forma inocente, o que a Ciência Política, Sociologia, Filosofia, entre outros campos do conhecimento, tentam explicar até hoje: a natureza dessa gente americana dos trópicos. Ela é imperfeita e desastrada, por definição, mas feliz e esperançosa, por convicção. E é essa gente bronzeada, como compôs o sambista Assis Valente, que hoje mostra o seu valor. Não contente apenas em ser parte de um processo de transformação social, quer ela ser condutora da própria transformação, o que pode iniciar novos episódios na vila sul-americana.


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