Ação e insatisfação

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Nessa semana, o que chamou a atenção foram protestos, em todos os cantos. Tivemos ativistas do Femen presas na Tunísia, a já comentada ação popular na Turquia contra o governo de Reçep Erdogan, a opinião pública dos EUA escandalizada com o terror dos grampos da CIA e, de modo mais intenso, manifestações contra aumento de preços no transporte público aqui o Brasil, especialmente em São Paulo, onde os choques com a polícia e a violência são maiores. 

Não vamos entrar nos méritos da discussão sobre quem está certo ou errado. No caso dos protestos no Brasil, existe uma tendência nada saudável a demonizar os dois lados da questão, com os manifestantes denunciando uma “guerra” da mídia contra o movimento e o governo e empresas de comunicação focando nos casos de vandalismo decorrentes. Qualquer aglomeração pode ser o estopim de um desastre, e existem pessoas e pessoas. Nem todos os manifestantes são bandidos, mas certamente há malfeitores entre eles, assim como se há policiais abusando da autoridade há aqueles que estão lá apenas fazendo seu serviço. Quando os dois lados perdem a razão, a legitimação vai embora. Mas, não é essa a questão na postagem de hoje. 

O interessante que essa experiência brasileira traz é o modo como esse tipo de mobilização acontece por aqui, contrastando com outros países. Qual a “gênese” desse tipo de revolta? Isso por que já faz um bom tempo que não vejo manifestações dessa magnitude no país, com tanta organização. Geralmente, o que chega aos noticiários são iniciativas isoladas e em casos extremos, como paralisações, invasões e coisa do tipo. As razões pelas quais o brasileiro evita esse tipo de confronto são inúmeras e rendem discussão sem fim, mas podemos dizer que existe uma “acomodação”. É preciso que surja um caso que afete um número MUITO grande de pessoas pra que se mexam. Foi assim no caso das Diretas, só pra pensar no mais famoso. Mas falta algo. 

Vejam outros casos recentes pelo mundo. Na Turquia, um protesto contra uma ação impopular do primeiro-ministro (a destruição da tal praça histórica) acabou virando uma contestação de seu regime. Na Tunísia então, lá em 2010, um rapaz chamado Mohamed Bouazizi resolveu tocar fogo em si mesmo, em protesto contra o confisco de seus bens pelo governo, e com isso causou a queda de pelo menos três regimes e convulsionou o mundo árabe – na verdade, até hoje. A graça dessas revoluções é justamente o fato de começaram com algo totalmente despretensioso ou sem relação com o “cenário” amplo e que acaba tendo repercussões muito maiores, diferentes do original. 

No Brasil, quais as chances de algo assim acontecer? Algo como, digamos, que esses protestos contra o péssimo serviço e transporte público virem algo mais. Baixíssima, eu diria. Fora os fatores culturais, talvez o que pese seja o fato de o Brasil ser, bem ou mal, uma democracia. Nesses países onde as coisas descambam para o enfrentamento direto da autoridade, geralmente existe repressão ou movimentos muito personalistas (como na Turquia). No Brasil, felizmente, ainda temos a opção pela solução democrática (apesar de, tecnicamente, poder protestar é uma das marcas de uma boa democracia). Não é perfeito, mas ainda está nas mãos da população o modo como vai ser governada. Aqui, mais uma vez, entramos num território delicado de condições e análises, mas acho que podemos dizer com certeza que a situação poderia ser MUITO pior. 

Existe insatisfação no Brasil, com certeza. Por um lado, fatores culturais e conjunturais tornam pouco provável que isso resulte em protestos mais incisivos, e ainda é possível alterar os rumos e “consertar” políticas segundo as regras do jogo, por meio de eleições. Por outro, é relativamente desanimador ver como existe pouca cultura de “incômodo” político por aqui – as mobilizações acontecem, geralmente, apenas quando o interesse específico de um certo grupo é atingido. Algum dia o Brasil terá essa consciência, seja da necessidade de união nos protestos, seja do poder que tem pelo voto? Precisamos de um Mohamed Bouazizi se imolando para abrir a cabeça da população e ver que seus problemas vão além do que se apresenta no noticiário? Perguntas, perguntas…


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