A volta do(s) malandro(s)

Por

A negociação entre Israel e Palestina tem passado por alguns maus agouros. Se a recente proposta dos Estados Unidos (aquela de doações militares à Israel em troca do congelamento temporário dos assentamentos judaicos na Cisjordânia, para mais sobre isso no blog, clique aqui) trouxe alguma inflexão no caminho das negociações de paz, digamos que, não tem sido para melhor.

Os EUA pediram 90 dias ao governo israelense para atingir algum avanço nas negociações. Um tempo assaz reduzido para uma negociação que não tem avançado muito nos últimos 50 anos. Assim, frente a esse cenário de ampliação dessas capacidades militares de Israel, financiada pelo país que tenta sempre encabeçar as negociações, que a Autoridade Nacional Palestina logrou insistir em uma estratégia que não envolva tanto os Estados Unidos:

A busca de reconhecimento do Estado palestino por mais países. E a nova jogada apontou para um país específico. Um que tem buscado mais visibilidade e participação ativa no cenário internacional e que tem visado assumir novo papel de global player: o Brasil.

Territórios palestinos em 1967


O país logo reconheceu o Estado Palestino nos marcos de 1967 e inspirou países vizinhos a agirem da mesma forma. A Argentina seguiu o exemplo e, logo o Uruguai o fará. Pode-se dizer que a ANP utilizou-se de uma cartada esperta, engenhosa e sutil, digna dos malandros.

Se Chico Buarque já fez sua homenagem aos malandros, ao cantar que a malandragem, nos moldes cariocas, não existe mais, acertou ao dizer que ela assume novas formas. Já era de se esperar que as reações estadunidense e israelense não seriam muito positivas, mas não se esperava que os Estados Unidos, nesse cenário de malandros e malandragem, tentassem a maior delas: voltar atrás sobre o congelamento.

Aquilo que deveria durar 3 meses durou 3 semanas, e o pretexto para a doação de equipamento militar à Israel caiu por terra. Nesse contexto, tem-se observado constantes afirmações de que o sistema internacional mudou e, com ele, o poder estadunidense declinou.Quanto à primeira assertiva, não há o que questionar, de fato temos observado mudanças de comportamento entre os países.

Quanto à segunda afirmação, não se pode dizer com certeza. Mas uma algo é certo. A malandragem estadunidense não tem sido vista com bons olhos nas negociações de paz no Oriente Médio e os países da região tem buscado outras formas de resolver seus contenciosos, na ausência dos EUA. Talvez a pressão que um grande volume de países reconhecendo o Estado palestino possa inspirar o Conselho de Segurança da ONU a novas medidas, e, se isso ocorrer, de fato, poderíamos dizer que o caráter do poder no sistema internacional tem se alterado. Entre malandros e malandragens, ficamos no aguardo para averiguar o quanto disso realmente foi eficaz.

Notas: Para ler as cartas entre Mammoud Abbas e Lula na íntegra, clique aqui. Para um interessante artigo sobre a proposta dos EUA de congelamento de assentamentos clique aqui. Cabe lembrar que, desde a Declaração de Argel em 1988, atualmente mais de 100 países já reconhecem a Palestina como Estado sobrerano, dentre eles China, Rússia, África do Sul, Índia e Venezuela.


Categorias: Estados Unidos, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Política e Política Externa


0 comments