A volta do pequeno gigante

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O pequeno gigante adormecido volta aos noticiários e não poderia passar despercebido pelo blog. Se bem que é raríssimo deixar de falar de Israel. Dos generais sanguinários aos governantes trapalhões, o país sempre teve mania de grandeza, a qualquer custo. Não basta dominar as colinas de Golã ou historicamente massacrar de modo indiscriminado os palestinos para colher os frutos de conquistas ingloriosas, é preciso também peitar o seu maior aliado: os Estados Unidos.


Recentemente, Estados Unidos e Israel têm protagonizado uma típica briga de marido e mulher. Ambos reclamam, trocam farpas e no final fica tudo bem, como se nada tivesse acontecido. Ah, o motivo: os assentamentos judeus na Faixa de Gaza. Este tema já figura na agenda bilateral de ambos os países desde o início deste ano. Obama contestou os avanços israelenses sobre os palestinos, contudo, Netanyahu reclamou que tais medidas eram necessárias e contribuiriam para a segurança de Israel. Os dois líderes também divergiram no tocante à criação de um Estado Palestino. Mas a moda agora é outra: criar 900 casas sobre território ocupado na parte ocidental de Jerusalém.

Oh, e agora, quem poderá defender os palestinos? Não, não é o Chapolin Colorado. É o Obama. Somente o líder norte-americano pode conter o ímpeto voraz de Israel, na visão do presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas. E logo quem, hein, Abbas? É bem verdade que ainda não foi feito tudo o que é possível, é imprescindível que Obama pressione o governo israelense contra os assentamentos e a favor da visão de dois Estados (Israel e Palestina). Por certo, esse histórico conflito no Oriente Médio se apresenta como uma excelente oportunidade para testar o poder real – e não simbólico – do recente Prêmio Nobel da Paz conquistado pelo presidente dos Estados Unidos da América.

Temos também uma novidade na política externa de Israel. Parece até inacreditável, mas Netanyahu tem abdicado de lançar primeiramente o soldado de Aron, aquele que mata, nos assuntos exteriores atinentes ao país; quem vai agora é o diplomata, aquele que fala em nome da nação que representa. Eis então que se percebe o emprego da diplomacia em duas questões.

Primeiramente, com quem se está buscando laços diplomáticos? Com ninguém menos que Ilhas Salomão, um micro-Estado da Oceania. E qual o motivo? Um tal de Relatório Goldstone (aqui). No dia 6 deste mês, tal relatório, cunhado pelo juiz sul-africano Richard Goldstone, foi adotado como resolução pela Assembléia Geral da ONU, solicitando a investigação de atos cometidos por Israel e pelo Hammas enquadrados como crimes de guerra e sugerindo a transferência desse relatório também ao Conselho de Segurança. Sim, Ilhas Salomão votou aprovou essa resolução e um diplomata israelense, “de passagem” pelo país, deveria comunicar o mau humor de Israel em relação a essa atitude. Ora, nos dizeres de Ygal Palmor, porta-voz do ministro das Relações Exteriores, “Diante da Assembléia Geral, a voz das Ilhas Salomão conta tanto quanto a da China ou da França.”

O outro ponto: Israel e o Hamas podem fechar um acordo para a troca de prisioneiros. Aliás, uma troca muito justa, um soldado israelense por centenas de prisioneiros palestinos – grande parte deles condenados pela organização de atentados ou por atos de terror, e um líder popular da Cisjordânia, Marwan Barghouti. Muito interessante a barganha diplomática de Israel: todos por um; todos que estarão novamente à caça para o predador exército israelense e que servirão como moeda em trocas futuras.

Inegavelmente, Israel está de volta ao noticiário, em grande estilo, e provoca um rebuliço nas relações internacionais contemporâneas: contesta o seu aliado histórico de um lado, lança o diplomata de outro, repudiando até as Ilhas Salomão. E os palestinos, coitados, permanecem reclusos em suas próprias apreensões e vivem em busca de uma vida para se viver. Isto não muda!


Categorias: Estados Unidos, Oriente Médio e Mundo Islâmico


1 comments
Luís Felipe Kitamura
Luís Felipe Kitamura

A disputa histórica entre Israel e Palestina é extremamente delicada. Muitos tentaram, inclusive vários presidentes americanos, mas não conseguiram. Não parece que o Obama seja a solução para o problema. Abraços,